terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Como vai você?


Olá.
Eu não acredito em você. Não porque eu tenha raiva de você, ou porque eu tenha sido tão machucada na infância que eu fiquei com ódio eterno de ti. Nada disso. Nunca achei que você fosse o culpado dos meus problemas, assim como nunca achei que você merecesse algum crédito pelas coisas boas que aconteciam na minha vida. Eu simplesmente me distanciei de você e eu vejo agora o quanto eu me fiz bem. Hey, eu acreditava em você, ok? Faz bastante tempo, eu era uma pirralha que vivia em um mundo que todo mundo acreditava e eu ia na mesma onda. E eu escrevia mil declarações de amor, todos os dias tecia a mesma fala. A básica oração antes de dormir. Mas eu passei de templo em templo e nunca nenhum deles se adequou a mim. Nenhum deles me ofereceu o que você dizia que eu teria antes de morrer. A verdade? A justiça? A pureza? A dignidade? Qual você acha que é o preço da minha alma? Por quanto você a compraria? E se você existe, você a compraria?

Eu duvido.

E um dia eu percebi que estava me enganando. Mas eu ainda não estava no final - eu ainda queria ter algo. Queria ter uma fé para chamar de mim, e eu mal sabia que eu podia simplesmente dar as costas para isso. O primeiro passo para eu te dar as costas foi quando eu me encontrei em um livro que falava de antigas magias. E eu aprendi o que significava cada erva, cada cor, cada símbolo. Fiz um altar com cálice e velas e entendi que havia algo maior do que você. Porque, sabe, você é apenas um cara muito poderoso que influenciou dois mil anos da nossa época. Mas quem eu cultuava, o ser para quem eu rezava, era muito maior. Ela era tudo: era eu e era você, era a terra e era o fogo. Ela era a nossa mãe. Ela veio antes de você e nunca, nunca nos abandonou. E eu era devota por algum tempo, até simplesmente perceber que rituais são estranhos e vazios.

Para quem você reza?
Para quem você pede proteção e força?

Hey, eu não acredito em você porque eu sinto ódio. É só porque eu dei as costas para você para poder abraçar outra coisa. Talvez eu passei um ano dando significados sobrenaturais ao que eu cultuava e tinha vários nomes, mas ainda hoje eu acredito nela. Ela não é uma deusa para nos amparar, mas ela é maior do que tudo isso. A vida não é curiosa? Passei toda minha infância rezando em seus templos, e agora eu estou dando as costas. Agora eu estou no outro campo da batalha, defendendo ardorosamente que você deixe de existir também para outras pessoas. Porque todos sabemos que as coisas que acreditamos são reais para gente. Então, hey, eu sei que você não é culpado dos nossos problemas. Você não pode fazer nada em relação a isso. Não é da sua alçada, sabe? Então as coisas são assim: você é o cara fodão para todo mundo na metade do mundo, e eu sou a garota que não acredita em ti. E por isso tem que escutar algumas coisas bem desagradáveis, sabe? É chato.

Bem, aqui está uma carta para você. É como se eu estivesse falando com o nada, sabe? Nada, mas eu tenho certeza que alguém vai me ouvir. Não importa se você com toda sua consciência celestial. Eu não me importo, eu só sei que estou farta de ver todas as pessoas culparem você pelos problemas dela. Quer dizer, desde quando uma chuva que destrói cidades é ordem sua? É a natureza - é ela que é maior do que qualquer outra coisa - agindo. Chuvas, furacões, terremotos - problemas da natureza que só podemos amenizar. Não é culpa sua que mais de duzentas pessoas tenham morrido nesse último verão, mas é culpa nossa. Foi porque nós fomos estúpidos e confiamos demais que você iria salvar aquelas pessoas e então você não salvou. Porque você não podia, não tinha como. E então as pessoas confiaram demais em alguém que não podia ajudar, entregaram seus destinos à sorte e pagaram com a vida. É culpa nossa cada guerra que acontece no mundo, e é nossa culpa que gays são discriminados e mortos e mulheres sejam rebaixadas e que sofram com estupros e assédios. Não é porque você mandou escreverem em um livro idiota que as pessoas levam a sério. Não é porque você mandou não sei que povo matar outro. Não é por causa de todas aquelas coisas cruéis e sangrentas que você mandou fazer - inundar o mundo? Destruir uma cidade? Testar a fé de Jó e com isso vê-lo perder as esposas e filhas? Na verdade, você nunca fez essas coisas. Porque você simplesmente não tinha como fazer. É só o bode expiatório de uma raça que não sabe lidar com os próprios problemas. É só uma figura - a quem culpamos, a quem rezamos, a quem imploramos por vida. É típico da gente.

Quando não conseguimos segurar a barra, então essas pessoas jogam tudo pra você. Típico.

Então quer saber uma coisa? Foda-se. Eu já dei as costas para você há muito tempo e isso me fez bem. Foi como se eu tivesse nascido de novo, como se eu simplesmente tivesse percebido que não tinha ninguém para ver as coisas que eu fazia e ninguém para me julgar. Me senti livre e estranhamente responsável - não poderia rezar ou me perdoar simplesmente se eu fizesse alguma merda bem grande. Foi como se eu tivesse arrebentado as minhas correntes. E não, eu não me senti perdida. Eu vivo bem em um mundo sem você.

E simplesmente por isso eu posso olhar para cima e dizer, com convicção, que eu não idolatro nenhum ídolo. Absolutamente nenhum.



quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

comeback, pop e outras coisas

Olá!
Hoje é quarta-feira, e é um estranho dia. Eu não tenho certeza se esse visual novo é o melhor - desconfio que há rosa demais - mas mesmo assim, eu quis mudar. Eu retornei com o batique, em outra cor, simplesmente porque achei bonito. Eu amo esse tipo de padrão, é tão lindo e simbólico.

E quanto ao banner... bem, eu desenhei o que é desenhado. Eu fotografei coisas minhas: a agenda de 2010 que me impediu de perder a cabeça, o colar do trevo de quatro folhas que minha amiga deu, Christina Aguilera em Can't Hold Us Down, Anne Frank (nem gosto tanto do livro, mas adoro a foto), uma foto de Megan Fox que era linda e eu quis, embora não seja fã dela nem nada, borracha e ponta 0.7 HB (aqui se fala ponta, ok), pétalas de rosas dadas por meu namorado que costumo guardar. É, sou meio sentimental com essas coisas.

E então é isso. São coisas legais que eu queria que refletisse um pouco minha personalidade, e também a nova alma do blog. Eu falei de muita coisa por aqui - homofobia, ditadura de beleza, amor, solidão, música pop, cinema e eu quero continuar fazendo isso. Estou com saudade de ir simplesmente escrevendo, de competir na Blorkutando, enfim, dessas coisas, entendem? Espero que sim.

O que mudou em mim desde que deixei esse blog abandonado? Bem, eu passei a assistir séries compulsivamente. Eu já fazia isso com animes, mas agora estou digerindo Glee e Supernatural, simultaneamente com Everybody Hates Chris e tem Gilmore Girls e Caprica me esperando no computador. Paciência, meus amores, ainda irei ver vocês! E ainda tem a música que tem me ocupado tempo e admiração. Me tornei fã de carteirinha de Christina Aguilera - nesse tempo comprei Stripped e o DVD de Back to Basics Live and Down (tenho certeza que o nome está escrito errado, mas foda-se) e ganhei Bionic - eu que não compro cds faz, tipo, dois anos? Passei a baixar álbuns de forma compulsiva: Adele, Katy Perry, Rihanna, Lenka, Marina and the Diamonds, P!nk, Britney Spears, Kerli, Gwen Stefani - absolutamente estou escutando (quase) tudo.


Mistreated, misplaced, missundaztood
Miss know it, it's all good
It didn't slow me down
Mistaken, always second guessing
Underestimated, look I'm still around ♫


Vamos lá, o que eu recomendaria? Afinal de contas a música é um negócio imenso e pouca coisa realmente tem qualidade, além disso isso é questionável. Britney Spears tem qualidade? Em que termos? Você a compararia com Björk? Eu aposto que ninguém ousaria dizer que Britney "samba" em Björk, porque a diferença é gritante. E somos estupidamente cegos em relação a isso... o fato de a gente gostar de algo não significa que esse algo seja bom. Todo mundo gosta de um lixo de vez em quando, seja qual for ele. Mas entre lixo, há pérolas. E eu realmente acho que Adele começou muito bem o 2011 com Rolling in the Deep, uma música maravilhosa que ganhou um vídeo esplêndido. Essa música se tornou a minha predileta de 2011, e o ano só está começando. Mas duvido muito que Britney ou Lady Gaga façam algo que me agrade tanto quanto essa maravilhosa música de Adele, uma britânica que canta soul e jazz. Kerli é outra que vem me agradando - uma jovem que se veste de formas criativas (alguns podem dizer que ela é uma wannabe de Lady Gaga, porém eu acredito que Lady Gaga não tem cacife o suficiente pra ter wannabes) e vem da fria Estônia. É interessante ver como ela se expressa pela arte, demonstrando suas opiniões sobre o mundo. A vida dela foi muito diferente da nossa. Para começar, ela cresceu em um país frio e comunista. As duas são novatas ainda, com muito chão pela frente, mas demonstram um imenso potencial que não pode ser desperdiçado.

Eu diria que essas são as pérolas mais brilhantes que escutei ultimamente. Há também a ótima P!nk que veio com o seu Greatest Hits e três músicas inéditas, uma delas sendo a magnífica Fucking Perfect (e foda-se todos que dizem que auto-ajuda está fora de moda). Há a Britney que promete o seu melhor vídeo em Hold It Against Me (e espero que seja um excelente vídeo, porque a música deixa a desejar, sendo chata e enjoativa). Há a Lady Gaga que está prometendo revolução na arte, sexo e história com Born this Way, álbum que virá, sei lá, em maio. Não faço idéia do lançamento do álbum, só sei que Lady Gaga cantará a música no Grammy. A letra foi postada esses dias, e eu devo dizer que achei um tédio.

Me admira ver as pessoas falando tão bem da letra de Born this Way, dizendo que é anos-luz superior a Fucking Perfect, Firework e Beautiful (e todos esquecem de True Colors, da Cyndi Lauper). O que existe em Beautiful e Fucking Perfect (e igualmente nos vídeos) é sutileza, tristeza e solidão. Você não pode escrever uma música sobre as pessoas se sentirem melhor se você não consegue entrar nas trevas dessas pessoas. É o que eu senti que faltou em Born this Way - sutileza, encanto, sombras. Aquela coisa de se identificar puramente com passagens, com realmente entrar na música e sentir que é você que tá cantando, não alguém que está falando pra te fazer se sentir melhor. A letra é direta e explícita, e eu não gostei muito disso. E eu sei que é (ou não) bobagem minha, mas eu não vou cantar "eu nasci assim, baby, Deus que me fez assim" se eu sou atéia. Eu vou me sentir mentirosa. Então, baby, Born this Way foi proposta a todos, mas foi incluir deus e nenhum ateu cantará. Como se identificar desse jeito?

E há tanta coisa. O que está valendo pra mim, ultimamente, é Supernatural. Estou ficando decididamente viciada.

Desculpa a falta de assunto... é foda voltar com o blog e não saber direito o que falar! :)


Adele com os dois Grammys dela! (^-^'')

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

novas direções, novos ares.

Não, isso não é 'meu retorno'. Não sei quantas pessoas lerão isso, já que Pernície se tornou um blog tão desatualizado que acredito que a maioria das pessoas tenham desistido de vir aqui e verem o meu novo post ou algo do tipo. Estive ensaiando um retorno durante as últimas semanas, mas sem entusiasmo algum. Escrever todo dia é algo que cansa e quase impossível, e eu estou me tornando uma pessoa muito diferente da que criou esse blog. Acredito que estou me tornando quem eu queria ser durante anos, amadurecendo com as experiências, entendendo e indo em frente. Aprendi a superar muitas coisas e eu simplesmente estou ficando mais animada.

2010 foi um ano surreal, assustador, fantástico e maravilhoso. Foi um ano que eu não comecei bem, porque eu estava muito frustrada e me sentindo péssima por ter repetido o 2º ano. Para quem sempre quis estar um passo à frente, para quem é considerado um exemplo pela inteligência, algo assim é simplesmente um choque. Mas não foi um choque para mim, é como se eu soubesse que isso iria acontecer. Mesmo assim fiquei me sentindo muito abalada e triste, e eu estava realmente chateada por ter que me separar de amigos que eu tinha feito, ficando para trás. Mas, sabe, foi bom. Eu entendi que não era sempre perfeita e eu não tinha toda a sorte do mundo para me salvar do pior. E eu meio que aprendi a ser sociável, fazendo ainda mais amigos. Eu aprendi tantas coisas esse ano que nem sei como começar ou dizer.

E eu espero continuar com isso nos anos seguintes. Espero poder separar as amizades que eu realmente considero das aquelas que tenho apenas por ter, porque o distanciamento e a frieza tomaram conta por tanto tempo que não há mais chance de retorno. Eu espero aprender mais coisas como tocar teclado e falar inglês, e eu espero adquirir mais cultura, mais sabedoria, mais conhecimento, mais empenho, todas essas coisas que as pessoas querem. Eu vou precisar me tornar mais focada e organizada nesse ano, porque já tenho tarefas que vão exigir isso de mim. E isso está relacionado com a escola e atividades fora da escola como esse blog.

O blog. É sobre isso que preciso conversar.

Eu quero continuar com o Pernície. Eu o considero demais, foi o primeiro blog que foi para frente, o primeiro a ter realmente leitores, blog mesmo do tipo que compete em competições como Blorkutando. Mas eu me pergunto se o rumo que eu estava levando o blog estava bom. Os posts estavam ficando curtos e chatos, absolutamente nada de interessante, sem sal nem pimenta. E eu fico cansada quando não tem polêmica para agitar as coisas. Então por isso que ele está em obras. Porque eu estou delineando um novo visual, que seja mais compatível com os rumos que eu quero dar. Eu quero que esse blog seja apenas um blog de opiniões, e eu quero que essas opiniões tenham um foco: ok, eu gosto de falar de tudo que é coisa, mas eu quero focar em cultura, em geral. Eu quero falar de filmes - fazendo análises, quero falar de álbuns - e lamento por quem não gosta do gênero, mas nesse caso meu foco será pop e eu quero, também, falar de feminismo em geral. Eu estou francamente cansada de ficar calada simplesmente porque estou com preguiça demais de dar murro em ponta de faca. Tem muitos blogueiros ignorantes que se acham no direito de estigmatizarem as mulheres como se elas só falassem de maquiagem e desfiles de moda, e esquecem completamente que temos o direito de ser tão respeitadas quanto eles. E não vou mais aceitar essa situação.

Aliás essa é uma das maiores mudanças em mim que vem se concretizando nos últimos anos: eu não estou mais disposta a abaixar a cabeça e aceitar simplesmente que as pessoas tenham opiniões diferentes sobre as minhas crenças, minhas opiniões, minhas condições. Eu exijo respeito por ser uma mulher, ser atéia, ser uma cidadã no fim das contas. Não vou simplesmente engolir essa merda de "respeito por todas as religiões" quando essas mesmas pessoas não perdem a chance de falarem mal dos ateus, e não vou mais aceitar cristãos e homens fazendo papel de vítimas como se fossem eles os discriminados pela sociedade. Estou ficando muito mais agressiva e não vou deixar ninguém tirar isso de mim. Eu não sou uma pessoa que vai perdoar piadinhas grosseiras sob nenhum argumento, nem tolero machistas, homofóbicos, religiosos fanáticos. Meu blog nunca teve muita polêmica, mas agora vai ter - eu não vou mais ficar cheia de dedos para não ofender ninguém.

Eu não entendo porque minhas opiniões tenham que ser invalidadas em cada debate possível da internet e eu simplesmente não posso falar nisso, senão sou chamada de feminista radical, agressiva e monstruosa. É uma coisa sem sentido.

Então nesse novo rumo que vou dar ao blog, a dica é: se você quer continuar lendo meu blog, leia. Eu serei simpática com meus antigos e novos leitores como sempre fui. Eu continuarei postando a partir de janeiro, mas o tom vai ser ligeiramente mais baixo, venenoso e irônico. Fiquem avisados.


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

a perfeição como uma meta

Eu terminei de ler o livro "Perfeitos" hoje. É o segundo de uma série que ainda não sei direito que nome tem, acho que é simplesmente Feios (confesso que odeio quando o nome da série é o mesmo que o título do primeiro livro. Porque não dá um nome diferenciado tipo Harry Potter ou A Mediadora?). Apesar da série ter quatro livros, eu já fiquei tonta de dúvidas, concepções e de profunda filosofia. Não porque o livro seja filosófico. Quer dizer, ele é. Acontece que sabe aquele livro que você devora na hora enquanto sua cabeça surta?

Pois é.

A premissa é quase igual à do filme Equilibrium... e a idéia-chave da coisa me faz lembrar também aquele filme chamado Os Invasores, o remake com a Nicole Kidman. A diferença é que em Equilibrium e Os Invasores, o ser humano é falho porque sente. Em Feios não: a humanidade é falha porque está fadada à isso. Enquanto ela tiver diferenças, imperfeições, conflitos, ela vai brigar. Então eles corrigem as pessoas por fora - através de cirurgias plásticas que são extremamente dolorosas e invasivas que envolvem desde corrigir o narizinho torto até remodelar os ossos - e por dentro que envolve, basicamente, manipular o cérebro. Como pode perceber, a série é ficção científica que acontece, pelos meus cálculos, daqui a uns três séculos. Eles sempre falam de duzentos anos atrás, algo do tipo. E eu imagino que em cem anos a gente teria aquele tecnologia e daria tempo da catástrofe acontecer. Definitivamente é um daqueles livros que te faz pensar "céus, porque não pensei nisso antes?" Pois é, o cara pensou e escreveu.

Tally, a personagem principal, é uma garota que vive programada para aquele mundo. Ela quer ser "perfeita", designação para todas as pessoas que passaram pela cirurgia. Devo dizer que fiquei pensando em um monte de coisa. Primeiro, eu gostei daquele mundo. Não foi quando eu assisti Equilibrium e ganhei repulsa de imediato porque era proibido escutar música e coisas do tipo, porque eram coisas que favoreciam a emoção, o sentimentalismo e tal. Em Feios, ninguém tem isso. A arte existe, é valorizada. O negócio não é a falta de sentimento. Mas sim um sentimento falso, como alguém que vive dia após dia procurando estar feliz e está feliz só porque essa é a ordem. Eu consigo imaginar colocando fogo no mundo de Equilibrium: ninguém gosta de ser forçado a tomar uma pílula todo santo dia. Ninguém gosta de viver em cidades que parecem bases militares. Mas aposto que a maioria das pessoas viveriam no mundo de Feios numa boa, mesmo com as lesões cerebrais e tudo o mais. Aposto que muitas pessoas abririam mão da individualidade humana se o mundo proposto fosse aquele: festas a noite toda, diversão garantida, nenhuma conta para pagar. E não é como se você fosse igual a todo mundo... é como se todo mundo fosse lindo e bêbado. É difícil ficar triste ou com raiva.

Eu estou, literalmente, na metade. Ainda não li Especiais e Extras. Mas eu fico pensando como será o final. Como podemos destruir uma sociedade sem oferecer uma alternativa em troca? O que poderíamos oferecer em troca desse mundo perfeito da série? Tally não pode ser uma agente contra o sistema, ela faz parte dele assim como eu faço parte da sociedade que vivo. Eu sou uma pessoa feminista em uma sociedade machista, anti-clerical em uma sociedade cristã, mas eu não estou à margem da sociedade. Eu vivo dentro dela como um câncer. Talvez essa seja a melhor definição para Tally Youngblood: ela é como um câncer cheio de pensamentos conflituosos dentro do mundo perfeito. Ela é como uma bomba que vai explodir a qualquer momento e atingir a todos que ama e odeia.

Apesar do livro ser todo cheio de tecnologia, não falta nenhuma emoção ou perfil psicológico. Não existe impessoalidade, aquela coisa chata de estarmos lendo uma coisa técnica, vazia, repleta de clichês científicos e bla bla bla. As relações entre as pessoas continuam importantíssimas, e as personalidades individuais trazem a graça. Acho que é a única obra de ficção científica que consigo ver completo sentido, que posso imaginar a nossa sociedade caminhando para aquele rumo. É bem inventivo como pranchas voadoras, nanoestruturas que destróem células cerebrais, buracos que cospem tudo o que você quiser, ausência de qualquer doença. Mas é real, é algo que você pode visualizar no futuro. Controle de natalidade, pessoas confinadas em reservas para estudos de antropologia, manipulações cerebrais, jogos de poder - é absolutamente tudo humano.

Porque não importa o quão cibernética seja a série... ela continua fantasticamente humana.


/Não preciso falar nada sobre meu abandono desse blog? Bem, blog é um hábito que você precisa cultivar. É preciso paciência, inspiração, tempo. E quando tenho um, não tenho outro. Nem tenho o que dizer...