sábado, 3 de abril de 2010

The Lovely Bones, the movie

Quarta-feira eu fui ao único shopping da minha cidade assistir Um Olhar do Paraíso no único cinema da minha cidade. É, minha cidade só tem um cinema, porque o outro, que usavámos antes da vinda do shopping, era desconfortável. Na verdade era um teatro com um telão, rs, e virou cinema pornô depois do shopping. Enfim, não é isso que interessa. O que interessa é que resolvi sair da rotina e assistir um filme no cinema, pra variar.

O filme Um Olhar do Paraíso foi inspirado no livro traduzido como Uma Vida Interrompida escrito por Alice Sebold. O livro é daquele tipo que corta seu coração de tanta tristeza. Para se ter uma idéia, minha mãe nem quis ver o filme porque só de pensar que sentiria o mesmo que sentiu quando lia o livro, bem, isso foi motivo suficiente para ela não querer retomar a tristeza. E quanto a mim, eu só li duas vezes o livro em toda minha vida (sendo que tenho um padrão de ler quatro vezes, uma ou duas vezes por ano). Toda vez que pego pra ler, paro só de imaginar que o quão triste é.

A parte mais triste do livro é que a escritora escreveu o livro alguns anos depois de ter sido estuprada em um beco, no seu primeiro ano de faculdade, e quando, machucada e perdida, pediu ajuda, ouviu que tivera sorte, porque várias mulheres tinham sido estupradas e mortas antes dela, naquele mesmo beco. O nome original do livro é The Lovely Bones que, literalmente, significa Os ossos adoráveis. Alguns anos mais tarde, ela reconheceu seu estuprador e o prenderam, condenando-o à pena máxima. Mas obviamente isso causou um incrível abalo sobre ela que começou, inclusive, a usar drogas, apesar de dizer que nunca fora viciada. O fato é que ela escreveu The Lovely Bones, e o que disse foi "I was motivated to write about violence because I believe it's not unusual. I see it as just a part of life, and I think we get in trouble when we separate people who've experienced it from those who haven't. Though it's a horrible experience, it's not as if violence hasn't affected many of us." que pode ser traduzido como (mais ou menos, porque não sou muito boa em inglês) é "Eu estava motivada a escrever sobre violência porque eu acredito que isso não é incomum. Eu vejo como simplesmente uma parte da vida, e acho que é um problema quando separam as pessoas que já experimentaram das que nunca experimentaram. Apesar de ser uma horrível experiência, não é como se a violência não afetasse muitos de nós". Acho que tá por aí.

A história se foca em Susie Salmon, 14 anos, apaixonada por Ray, um garoto de pais indianos que viveu na Inglaterra (a parte sobre a Índia não aparece no filme, mas você deduz pelas roupas da mãe de Ray) e pertencente à uma família tradicional americana dos anos 70: pai, mãe, irmã e irmão, ambos mais novos. É uma garota ativa, cheia de vida, cheia de projetos como ser fotográfa. Porém um dia, quando volta tarde para casa, ela se depara com seu vizinho, o sr. Harley, e ele a atrai para uma espécie de esconderijo que construíra. De acordo com a própria personagem, a época era a época que crianças desaparecidas era algo que não tinha muito destaque e as pessoas confiavam muito mais. Afinal hoje em dia se uma criança encontrasse com um cara que perguntasse se você quer ver o que ele construiu - uma espécie de clubinho subterrâneo - o mais provável é que ela corra, e se mande. Mas eram os anos 70, era Estados Unidos (ninguém tem medo de lugares desertos nos EUA, é impressionante), era um vizinho, então a garota confiou, entrou no local, e cara, se deu mal.

Ele a cercou, a estuprou, a matou e a mutilou. Aí se começa uma sutileza. No livro, Susie lembra o que quanto ele a machucou, esquartejando-a depois de morta. Inclusive no livro o primeiro indício de sua morte foi o cotovelo encontrado por um cachorro, porém não se sabe a quem pertence, mas nós - leitores - sabemos que pertence à Susie. Durante o filme, porém, não há nenhuma parte que confirme o estupro e o mutilamento. Há deduções: a cena do vizinho a jogando no chão, o saco preto em que você sabe que é impossível caber uma pessoa sem ser mutilada, todo o sangue. E então a personagem, doce e angelical, vai para uma espécie de Meio-Termo. Ela tem que ficar lá, porque as pessoas não conseguem superar sua perda, e nem mesmo ela consegue se desapegar de seus familiares e amigos. E enquanto houver essa ligação, diz Franny - personagem existente no livro e suprimida no filme - ela não poderá nem retroceder à Terra (impossível) nem avançar para o Céu.

O filme se cerca de alegorias e jogos para representar a ligação entre esse fantástico mundo estranho e a realidade. A cada vez que o assassino destrói uma prova, Susie sente, do seu pequeno reduto seguro, a perda de mais uma ligação. Ela experimenta sensações de terror e encanto: o novo mundo tem absolutamente tudo o que se quer. Ela pode ser quem quiser, ter o que quiser. Um cantinho cheio de desejos querendo serem realizados, certamente confortável para abarcar a recém-assassinada. No filme Holly desempenha o papel da Holly e Franny do livro. Ela é a amiga, companheira e companheira, mas também é a orientadora. E Susie, desempenhada pela atriz Saoirse Ronan que fez Desejo e Reparação, tenta lutar com o ódio que sente. Ódio por ter um assassino que ninguém consegue descobrir, ódio por ter sido separada da família, ódio por ver sua família, anteriormente tão feliz, sentir as fragéis ligações caírem por terra.

Aí eu devo discutir algumas mudanças entre o livro e filme. O filme acabou se tornando mais inocente, muito doce, como um inocente parque de diversões. Há somente beijos, mas não há a menção ao sexo. Há indicações e muita sutileza, mas nenhuma confirmação de toda a brutalidade. Susie não é uma pessoa que simplesmente continuou doce depois da crueldade cometida, e sim uma pessoa que decidiu ser doce, e isso meio que se perdeu no filme em relação ao livro. Mas devemos, claro, elogiar a atuação da Susan Sarandon que fez o papel da avó de Susie. A atriz já fez Tudo Acontece em Elizabethtown, Encantada, Doidas Demais e O Óleo de Lorenzo. A personagem saiu como uma caricatura, mas desempenhou o papel que deveria desempenhar: a avó fumante, que bebe todas e dá um 'up' na vida da família destroçada pela perda. No livro ela transforma a filha mais nova, Lindsay, representada pela Rose McIver no filme. A irmã é absolutamente essencial: tanto no livro quanto no filme ela sofre o impacto de ser a irmã da assassinada, de ter que ser agora a irmã mais velha, o exemplo, a régua moral. De uma hora pra outra, ela sente que tem que desempenhar o papel de ser a irmã mais velha, principalmente para o irmão caçula, um garotinho. No livro o impacto disso na escola é explorado, ausente no filme: na feira de ciências, Lindsay desenha em seu crachá o peixe salmão, ao invés do sobrenome, simplesmente para ninguém lembrar de Salmon = menina que foi assassinada e etc. Além disso a irmã se une ao pai (de forma indireta) na procura pelo assassino, porque sente que não conseguirá ter paz até descobrir a identidade de quem destruiu a família.

O filme é encantador, salvo algumas cafonices a la photoshop Glimboo, porque francamente rosa desabrochando debaixo da água é algo bem brega. Para quem se interessa, o filme foi feito por Peter Jackson, o mesmo que dirigiu O Senhor dos Anéis. Aparentemente ele fez um filme chamado Almas Gêmeas que fala um pouco de escape e assassinato e parece ser interessante. O filme é antigo, mas quando eu achar, baixar e ver, dou um review. A outra coisa que surpreende na atuação é o cara que faz o assassino. Ao pesquisar sobre o filme, descobri que o sr. Harvey é feito pelo mesmo cara que faz aquele cara careca e passado pra trás por Miranda em O Diabo Veste Prada. Confesso que me surpreendi, não imaginava que o mesmo cara podia encarnar dois papéis tão distintos a ponto de eu mal reconhecer. Dou palmas para a atuação dele.

O filme também merece palmas pelas tomadas da câmera. São tomadas bem intimistas, com aquele zoom bem perto que visualiza os poros da pele, lascas de madeira e coisas do gênero. A edição, a fotografia, absolutamente toda essa parte está esplêndida. A trilha sonora também é boa (mas teve um momento que não gostei muito da música. Por algum motivo não consigo gostar de música cantada em filme que não seja musical).Senti falta de algumas cenas do livro como a cena em que contam para o irmão mais novo que a Susie morreu, e inclusive acho que o irmão foi meio negligenciado, tratado meramente como uma criança que por acaso é o irmão de uma garota que morreu, quando na verdade ele representa a inocência infantil diante do assassinato. O papel do detetivo foi pouco explorado, e do pai ficou na medida. A irmã foi menos explorada do que deveria, mas ainda assim passa a impressão correta. Pensei na Abigail, a mãe, como uma mulher mais sensual presa pela vida típica de dona-de-casa, mas a atriz foi bem em seu papel.

Então, encerrando, obviamente o livro sempre se sai melhor do que o filme, justamente por ter mais possibilidades de cobrir cada personagem e entender a importância de cada um. Ruth, Ray, Lindsay, Abigail - todos tem um mundo dentro de si, e enquanto o filme explora a visão de Susie para cada mundo, o livro explora o modo como Susie entende cada mundo. Parece igual, mas há diferenças. E acho que, no fim das contas, faltou sexo. Afinal quando Susie fala "minha irmãzinha me passou na frente", ela não se referia ao beijo que Lindsay deu, e sim à sua primeira vez. A mesma coisa quando Susie precisa sentir Ray e acaba assumindo o corpo de Ruth... é mais do que um beijo, é o desejo carnal que ela precisa ter, e não pôde devido ao assassinato.

O filme é belo. O livro mais ainda.


desconsidere os anúncios do final, ok

P.S.: pesquisando e lendo comentários, vi que muitas pessoas acharam fraco e etc. O.k. Mas há algumas informações que me senti na obrigação de adicionar: primeiro, não é um filme de suspense. Tem gente achando que é tipo suspense 'quem matou Susie' e não é. É um filme de drama, e portanto sabemos desde o início quem é o assassino. Depois percebi que tem pessoas que acharam o filme confuso. Eu não achei, mas talvez tenha sido porque li o livro, então entendia o que estava rolando. E percebi que as pessoas tem mania de fazerem críticas tipo "ah, não entendi, então é uma porcaria". Isso realmente me faz perder a credibilidade em qualquer crítica da pessoa porque se ela não consegue avaliar os quesitos como fotografia, enredo, roteiro, etc e simplesmente classifica em "se é confuso ou não", então ela é incapaz de criticar qualquer coisa. Mas, enfim, não achei o filme tão confuso assim, mesmo depreciando o fato de li o livro. Mas acho melhor outra pessoa afirmar isso, uma pessoa que não tenha lido o livro.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

gosto mais de aniversário do que de ano novo

Eu ia fazer um post para a Blorkutando, mas estou vazia de inspiração, então tudo o que vou dizer: AEAEAE PARABÉNS, BLORKUTANDO, NÃO É QUALQUER PROJETO DE INTERNET QUE CHEGA A 2 ANOS, OMG! Então uma salva de páginas para o nosso admirável projeto que ajudamos a formar e que ele faça inspirar garotas e garotos a escreverem dentro de pautas e prazos, porque aniversários significam meramente que atravessamos MAIS um ano e vamos concordar que viver nesse mundo é algo muito complicado. É como um jogo de videogame que atravessamos por obstáculos imensos, intransponíveis e maiores do que a pedra encontrada por Drummond. Para começar nos defrontamos com a questão de que quanto mais aniversários uma pessoa tem, mais perto ela está da morte. E a morte nos assusta, apavora e decidimos que ela é a vilã, mas na verdade é só um lembrete para a gente aproveitar bem a nossa passagem.

Eu compreendo que algumas pessoas não liguem muito para aniversários, afinal de certa forma é uma imbecibilidade dar parabéns à uma pessoa só porque ela nasceu naquele dia não sei quantos anos atrás. Mas e daí? Vamos nos sentir especiais porque atravessamos mais 365 dias com o oxigênio queimando nossos órgãos, inspirando ar contaminado da vida urbana do século XXI, convivendo com a mediocridade, ignorância e estupidez. Merecemos, no mínimo, ganhar uns dez scraps no Orkut de gente que nunca viu mais gordo porque fomos capazes de aguentar MAIS um ano nesse planetinha esquisito. Afinal não é qualquer pessoa que consegue simplesmente respirar e ignorar todas as mazelas da sociedade para viver bem o suficiente consigo bem. Então cada vez que chega o meu adorável 22 de agosto, eu comemoro sim e me sinto no direito de ser tratada como uma rainha simplesmente porque fui corajosa, persistente e nem tentei me matar a cada vez que me deparo com notícias horríveis. Aniversários são experiências estranhas. Um ano a mais perto da morte. Um ano a menos de vida. E ainda assim simplesmente um ano que você olha pra trás e percebe que passou rápido demais.

Afinal até os quinze anos, o tempo demora a passar. Depois dos quinze, já vem tudo rápido. Eu ainda me lembro da minha ansiedade em chegar aos 11, depois aos 12 (e comemorava o fato de passar mais um estágio da censura de filmes). Cheguei aos 13, idade louvada, odiei e quis os meus 14 anos, pois queria uma idade par. Cheguei aos 15 depois de muita ansiedade, demora, tempo que não queria passar. Fiz tatuagem, quase viajei, não dei festa nenhuma. E agora tenho 16, os meus 17 vem rápido. E não quero completar 18, só de pensar que logo logo saírei da doce fase da adolescência que tenho tempo livre me apavora. Mas uma hora meu aniversário de 18 anos me lembrará que tenho mais responsabilidades do que nunca, de todos os projetos que quero fazer quando sair de casa, de absolutamente tudo o que eu dizia que iria fazer ao chegar aos meus 18 anos (dirigir carro, morar sozinha, ser dona do meu nariz). E não quero nem pensar ao chegar aos meus 50. Será que vou engolir tudo o que eu disse sobre como as pessoas deveriam pintar menos os cabelos, porque acho cabelos grisalhos bonitos? Será que ao chegar aos 80, vou me sentir desesperada por atingir a velhice? Ou eu nem vou chegar? Vou morrer antes, nesses caminhos da vida, com uma bala perdida, um câncer, um psicopata?

Então, de qualquer modo, meus 17 anos vão chegar em agosto, no meio do Festival de Inverno e de novo não vai rolar festa. Mas hoje eu estou dando os parabéns ao projeto Blorkutando, porque afinal não é qualquer projeto que sai de chats, e menos ainda que vão pra frente, que completam mais de um ano de existência. Para um projeto viver, é preciso de pessoas por trás que o façam viver. Pessoas que insistam, divulguem, participem. Então PARABÉNS aos idealizadores e participantes, pois vocês - nós - fizemos isso ir pra frente. E cada um de nós, de certa forma, colaborou para mais um blogueiro entrar na brincadeira.

E para todos os leitores, considere-se parabenizados nos dias de seus aniversários. Pode vir Dexter dizer que aniversário é algo mórbido de se festejar, mas pensem em si mesmos como guerreiros absolutos que conseguiram atravessar por esse mundo louco com seus terroristas, enchentes, traficantes e serial killers sociopatas e estupradores. Trarão sequelas ou não. Mas basicamente quanto mais se vive, mais se morre. Nada mais justo então do que fazer um bolinho, acender uma vela e se achar a rainha/rei só porque faz não sei quantos anos desde que nasceu e venceu a dura guerra de sobreviver nove meses na barriga e romper pelo canal vaginal. Ou não, dado que as pessoas nascem cada vez mais com cesáreas. Não importa. É simplesmente encarnar o lado brega dos aniversários, afinal se sentir feliz só porque é seu aniversário não mata ninguém.




E agora reparei que isso virou um post, então dá pra concorrer. Eu faço o review de Um Olhar do Paraíso outro dia. E quem não reparou, eu adicionei o Feedjit. Com esse mecanismo eu descobri um monte de coisas. Descobri que quem pesquisa por cabelos enrolados, vai cair no meu blog. E por algum motivo bizarro o termo "africanos transando com mulher" faz com que o Google redirecione para o meu review sobre Infância Roubada. Além disso descobri que tem alguém de Texas que lê meu blog e alguém de Ohio que procurava por coisas relacionadas às unhas de Viver a Vida. E o Windows realmente domina, de todos os visitantes, só um é Linux e uns dois são desconhecidos, creio que Macintosh. O resto é Windows, seja o XP ou o Vista. O Firefox aparece pau a pau com o Google Chrome. Internet Explorer é pouco usado. É, queridos, esse Feedjit é o meu Big Brother. Mas não se preocupem, esse troço não registra IP, então não tenho como descobrir a identidade. Estão seguros aqui, rs.

E, Laís, você me deve algo. Pelos meus registros, um monte de gente vai no seu blog pelo link que ponho aqui hehehe. O seu blog, aqui, é disparado o mais clicado. O outro blog mais clicado é o Síndrome de Estocolmo.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

uma mini novelinha mexicana




Era a décima primeira maldita vez que a velha movia seus lábios para emitir um chulo palavreado típico dos pseudo-burgueses indignados e mal-humorados. Para criticar sua filha, Constantine, a velha achava que podia usar de qualquer artifício, inclusive usar a sua pobre nora, Paola Maria, como prova do que acontece com as mulheres que tentaram pensar demais na adolescência. Obviamente Paola Maria sentia todo aquele ódio misturado de humilhação em sua garganta, e engoliu em seco.

Tinha mais de trinta anos a Paola Maria e metade de sua vida estava naquela casa, com aquela velha, com o filho da velha. Casara-se cedo, levada por uma paixão tipicamente adolescente, cheia de ardores, panos quentes e muitas noites fogosas no escuro. Mas agora tudo era mera lembrança, ainda mais quando a Paola Maria erguia os olhos e via o seu marido na versão atual, uns quinze anos mais velho: gordo, peludo, resmungão, futebol, cerveja no cérebro, abdomên e na mão, palavrões sendo a sua segunda natureza, o machismo sendo a sua primeira. Foi uma clara decepção e a pobre Paola Maria não sabia muito bem o que fazer, visto que queria realmente um pouco de paz. Mas tendo aquela velha imbecil que acreditava em mitos lhe enchendo o saco, acreditando piamente em coisas sem o menor fundamento científico.

Paola Maria gostava de ler os avanços da ciência, resquícios de sua adolescência quando sonhara em ser uma famosa cientista que conseguiria fazer da água o maior remédio do mundo. Ela faria com que uma simples gota de sua avançada bebida fosse capaz de curar a diabetes, câncer de mama, impotência masculina, frigidez e mau-caráter. Era deveras sonhadora, mas na época ninguém via muito mal em uma criança sonhar. Agora ela tinha na ponta da língua as respostas dos mitos recorrentes, mas de que adianta quando a velha com quem você mora se recusa a abrir sua mente para aceitar qualquer novidade, seja ela vinda de Harvard ou Oxford?

E a pobre Constantine tendo seus sonhos ceifados no auge de sua juventude. Coitada. Se continuasse a ser infernizada assim, viveria no inferno até o fim de sua vida. E provavelmente casaria-se com o primeiro princípe encantado que surgisse na sua frente e descobriria quinze anos depois que o princípe era só fantasia e que sempre vem incluso de um pacote tenebroso constituído de família, machismo e grosseria. Ah, pobre Paola Maria! Pobre Constantine. Mulheres de almas sonhadoras e despidas pela cruel sociedade!

- Vai se misturar àqueles imundos comedores de crianças! - declarou a velha, xingando o frango assado que Paola Maria tinha se esforçado tanto para fazer. E a maldita xingava o frango, o precioso arroz, o suco de acerola com abacaxi, o refrigerante, a salada esplêndida, absolutamente tudo que a pobre Paola Maria tinha feito ou comprado. - tanto as pessoas falam e falam, e eu nunca acreditava...! Mas devia saber a víbora que tenho como filha, aliada daqueles demônios? - sua voz ecoava pela sala de jantar, com todos seus gritos insultando a filha. Palavrões, xingamentos e noções deturpadas faziam parte e o irmão de Constantine, Antonito Juan, nada fazia. Só concordava com toda a falta de educação que a velha possuía.

Resmungando, bebeu o suco de acerola com abacaxi. A velha tinha muitas opiniões firmes, duras e sem chance de serem mudadas. Quantas vezes Paola Maria tentou argumentar que pobres não são todos sem classe, que comunistas não comem crianças e que tudo bem se a pessoa não for católica? Paola Maria tinha a ciência ao seu lado, comprovando cada argumento que ela dissesse, mas a velha tinha a sociedade inteira a seu favor.

A qualquer momento teria um piripaque. Sendo hipocondríaca, tomava remédios de tarja preta escondida do filho que não gostava, e sempre achava um pretexto para se fazer de doente. Mas muito de suas doenças era simplesmente fingimento, mas ao decorrer de todos esses anos, a velha começava a acreditar nas mentiras que dizia e assimila-las a tal ponto que realmente começara a ter alergia de leite com manga, precisar de aspirina por toda vez que tinha barulho na rua e só se acalmar quando bebia água com açúcar. Sendo a vilã da história tipicamente novela mexicana, ela era malévola, grosseira e nada simpática. Enquanto a pobre heroína de nossa nobre história dramática denominada Paola Maria tinha que aturar toda essa triste história que fez com que ela perdesse seus sonhos, sua beleza adolescente e sua felicidade em sonhar com o mundo feliz.

- Mãe, vou embora - disse Constantine, muito irritada, e se levantou da mesa. A velha continuou rosnando, se erguendo da mesa também, soltando insultos.
- Sua corrompida. Aposto que ficou com aquele dirigente vagabundo - a mãe murmurou, sua voz cortando o ar como faca. Paola Maria também se levantou, achando melhor já estar preparada para pegar o maldito copo com água e açúcar para fazer a velha, ao menos, sentar, respirar e ficar mais calma. Do jeito que a coisa estava indo, era capaz de Constantine apanhar. Silêncio.

Constantine se virou, desdenhou.
- E se fiquei? Não é mais problema seu.
- Ficou? Não foram só beijinhos.
Um riso de Constantine deu a resposta: não foram beijinhos.
Paola Maria correu pra cozinha, escutou gritos entre mãe e filha, e alguém berrando de dor. Decerto apanhava da mãe que batia ou a velha estava tendo o piripaque.

Mas todo o ódio acumulado naqueles gestos. Toda a vontade de manipular aquela simples bebida. Não havia algum fundamento científico para a água com açúcar, ao contrário, os médicos, cientistas, as pessoas que sabiam do assunto diziam todas que se o açúcar é transformado em glicose ao chegar no organismo, então não tinha como ele ser relaxante. O efeito era psicológico, puro placebo que funcionava. Como funcionou com a velha durante anos. De certo modo, a velha acreditava piamente que sem a água com açúcar, ela iria ter um infarto e iria morrer. Sempre creditou sua vida longa à água com açúcar e seu suposto efeito relaxante. Então Paola Maria, de certo, tinha sido a responsável pela mulher viver tanto tempo porque ela era quem fazia questão de acalmar sua sogra, procurando retribuição por toda a bondade que tinha? Enraivecida, continuou escutando os gritos. A velha estava tendo um piripaque. Surgiu o berro de Antonito Juan:
- Cadê a merda da água dela, mulher?
Surgiu o fino grito de Constantine:
- Mamãe!

O copo já estava cheio da água da torneira, já derramara três colheres de chá de açúcar dentro do copo. E impulsionada por um instinto assassino, jogou a água na pia, deixando cair pelo ralo e quebrou o pote repleto de açúcar no chão. Não havia mais açúcar, não se pisara em cima e gritara a ausência da preciosa sacarose para a casa inteira ouvir, incluindo a velha que gritara pasmada. Aí, levada pelo seu medo profundo de um dia não poder confiar em suas superstições, sentiu o coração bater cada vez mais rápido. Por puro estresse e pavor, a parada cardíaca se fez e só Constantine que tomou a atitude de correr para o telefone e ligar, pedindo ajuda. De nada adiantou.

O enterro foi dia seguinte, Constantine foi embora e, feliz, Paola Maria pediu divórcio e sumiu no mundo pra ser feliz. Dizem que ela encontrou um espanhol no percorrer da vida, se apaixonou perdidamente e foi viver feliz com ele em uma casa muito simples e bonita em Londres, e outros falam de como ela resolveu ser viajante pela China e Índia. Mas tudo o que dizem é que sabem que ela resolveu ser simplesmente feliz, depois que faltou a água com açúcar.



isso é uma brincadeira. sem graça, mas a quis de qualquer jeito.

Pauta para Interativos, uma brincadeira de Laís. Postei atrasada por motivos de ficar sem internet, sem tempo e sem paciência, mas vá lá.

A propósito quem me sugeriu o tema foi a Michele, dona de um blog muito doce chamado O Diário de Marin Jones que contém textos alegres para fazer todo mundo feliz. Ela sugeriu o tema água com açúcar e me deu total liberdade. Então resolvi misturar uma pseudo-novela mexicana (quer algo mais água com açúcar que isso?) e o significado de beber o troço = relaxar. Obviamente a história tem algo trágico, mas se a história não tiver algo trágico, não é de Luna.

E a propósito, votem: petição para Ficha Limpa. Pretende chegar a 2 milhões de brasileiros, e o objetivo é apoiar e pressionar os políticos a votarem a favor do projeto Ficha Limpa que será votado dia 7 de abril. Caso esse projeto seja aprovado, os candidatos que tiverem cometido crimes serão retirados das eleições de outubro. Basicamente, houve passagem na polícia e etc? Não pode sequer ser candidato. Enfim, não sei se isso vai dar certo, os políticos possuem muito desprezo pela população brasileira. Mas talvez isso tenha algum efeito real.

segunda-feira, 29 de março de 2010

dica super mara - ou não

Estava andando pela internet linda e diva -n e pensando em como iria fazer os textos para duas pautas que eu tenho, além de conciliar meu adorado blog com os deveres de casa, deveres com a família, deveres com os amigos e comigo mesma. De qualquer modo, eu achei isso e me deslumbrei totalmente.

A Abril, editora que lança National Geographic, Capricho, é dona da MTV Brasil, Editora Ática e Scipione e ex-dona da UOL e Canal HBO Brasil, está lançando uma série de livros. 35 volumes (30 livros) encadernados com capa dura, encadernados com tecido como a moda de antigamente, papel nobre, formatação a la nova gramática portuguesa (eca), 16 páginas ilustradas (sacou o detalhe: ILUSTRADA) sobre o autor e a obra (hm, quero ver a de Oscar Wilde. 16 páginas falando de como ele foi parar na cadeia por sodomia. Esses autores não eram nada corretos, do ponto de vista moral da época) e tradução (que de acordo com a propaganda -que pode ser enganosa- é feita pelos melhores) ok.

Talvez eu esteja sendo levada pela propaganda mostrando todo o glamour de livros clássicos, afinal sei que publicitário é pago pra encantar a gente, rs. Mas vamos: quando é que você acha livros encadernados com capa dura e com ilustrações por 14 reais e noventa centavos? Um livro, no Brasil, costuma custar uns 30 reais só por ter capa dura. E embora os clássicos sejam despidos de direitos autorais, então vale a pena vender a esse preço baixo, ainda assim... você não encontra isso em qualquer esquina, ainda mais no Brasil.

E isso vale pra mim que estava procurando por volumes INTEGRAIS. Cansei de ver esses livros que se dizem "integrais", mas é menos da metade do original. Livros de bolso são realmente úteis, afinal dá pra levar pra tudo que é canto. Mas livro de bolso que se diz 'integral', ou seja, inteiro, sem adaptações não! Até parece que vou cair nessa, favor! Adaptar tudo bem, mas fala que é adaptado, não tenho preconceito '-'

(que nem uma vez... minha irmã tem o Drácula inteiro, capa dura, parecendo couro, com letras douradas na capa. É grossinho, com umas 365 páginas, mas a folha é bem fininha e a letra pequeninha. Aí chego na biblioteca escolar e encontro o Drácula pequeno, de bolso, com a letra gigante, com quase 200 páginas e se dizia "integral"... não tem nem como)



Ilustração para Madame Bovary, de Alfred de Richemont, 1905

No momento ele já chegou em SP e RJ. Em maio chega a nós, meros mortais que não moram nas metrópoles e ignorados pelo mundo -brincadeira. Vende-se nas bancas, livrarias e no mercadinho da esquina (se tiver cultura o suficiente pra vender revista), por apenas 14,90 (e nem é promoção) e você pode assinar, se quiser, pagando 9 parcelas de 47,80 reais (sem frete, o que é algo realmente bom). Eu quero ler muitos da lista, inclusive aqueles que sempre tive vontade de ler, mas nunca li por falta do livro mesmo: Madame Bovary, Dom Quixote, Crime e Castigo, O Retrato de Dorian Gray (que li só a versão de bolso e desconfio que tenha sido adaptado), Orgulho e Preconceito, Os Sofrimentos do Jovem Wersther. Você acha que essa história é banal, acha os sebos melhores (né, minha irmã comprou o livro Tubarão por menos de 4 reais aqui anteontem) ou está interessado?

E se você se interessou, foi pelo preço (em sebos você acha menor) ou simplesmente se encantou pela imagem de ter livros com capa de tecido como as pessoas tinham antigamente?