Olha, eu não sei como eu comecei a ser feminista.
Eu só sei que sou. Desde que me entendo por gente, eu sou. Era um comportamento natural, ao meu ver, de mulheres. Eu achava que todas as mulheres eram assim: por quê alguém seria contra a idéia que dava às mulheres o que era de direito delas? Eu entendia os homens: eles eram machistas e grosseiros, e cuspiam no chão. Era nojento, mas eu entendia que eles não queriam ver as mulheres se igualando a eles. Mas na minha cabecinha infantil, todas as mulheres eram feministas. Feministas não, que nem sabia o que significava a palavra. Mas a palavra na minha cabeça dizia a mesma coisa. Assim como todos os negros eram contra o racismo, todos os gays eram contra a homofobia, as mulheres seriam contra o machismo. Minha cabeça funcionava assim. E deveria ser assim, mas demorou muito tempo até eu entender que as mulheres são vítimas e agentes desse machismo e a mesma coisa acontece com negros e gays: a sociedade existe de tal forma que quem vai contra a corrente costuma se sentir muito culpado de ter um pensamento não-corrente.
Mas eu creio que um marco fatal no meu feminismo foi eu assistir um videoclipe. Não lembro quantos anos eu tinha, mas eu lembro que estava na sala e estava passando o canal de videoclipes da Multishow. Eu preferia Multishow porque os clipes passavam legendado (não sei se ainda passam), então eu entendia o que aqueles rappers e Madonna estavam cantando. Foi nessa época que comecei a amar Madonna (e peguei o dia que ela passou o clipe censurado de American Life, que eu amo). E foi quando eu assisti um clipe chamado Can't Hold Us Down. Eu nem sabia quem era Christina Aguilera. Quer dizer, até sabia porque ela tinha sido capa da Capricho, mas nunca tinha ouvido, falar, nada. Eu só sabia que ela era uma cantora que vestia roupas muito sensuais. O termo mais gentil para descrevê-la que as revistas usaram foi "vadia". E ela cantou naquele clipe e a mensagem ficou impregnada.
Sabe quando o mofo pega na roupa e não quer mais sair? Foi exatamente desse jeito.
Passou uma vez, nunca mais vi, deixei para lá. Durante esses anos, esqueci quem era a cantora e o nome da música. Não sabia nada, só que ele era com uma mulher de cabelo preto, boné, top e short que personificavam a indecência em roupa. E era rosa! Mas eu lembrava a letra.
"Então porque eu não deveria ter uma opiniãoEu deveria ficar calada só porque sou uma mulher"Foram essas duas frases que mais me marcaram. Era só uma música. E embora eu já fosse feminista (mais ou menos, cegamente, sem ter consciência), foi com essa música que já passei a questionar um monte de coisas. Passei a questionar sobre a minha postura que embora acreditasse que mulheres tinham que ter direitos iguais, tal coisa não abrangia os direitos sexuais. Acreditava piamente que menina tinha que se dar ao respeito, que aborto só em estupro, porque a mulher tinha que aguentar as consequências do que fazia, que ninguém mandou ela abrir as pernas. Todos esses clichês de pessoas que tem horror ao feminismo, de pessoas que se dizem feministas, enfim eu acreditava que as mulheres tinham que ser consideradas iguais no trabalho, mas não podiam desonrar o movimento agindo como "vagabundas". E esse clipe, com Christina Aguilera trajada indecentemente, mudou isso completamente. Ele não quebrou de imediato, mas plantou a semente. É por isso que hoje eu sou fã dela: quantas pessoas, com palavras, conseguem mudar conceitos tão arraigados na nossa mente?
Dali em diante, calei minha boca em relação à muitas besteiras que eu dizia. E passei a ser muito, muito mais militante. Nem tanto em relação ao feminismo, mas eu relacionava machismo com homofobia e com total repulsa ao machismo, passei a defender fervorosamente os gays. A defesa era tão veemente que eu creio, na minha antiga escola, que despertava até suspeitas de que eu fosse lésbica (o que seria muito engraçado, mas enfim). A defesa veemente em favor das mulheres veio mais tarde. Por causa de Christina Aguilera e Madonna.
Eu não aceitava quando as pessoas diziam que Madonna estava velha. Que ela era uma múmia, que não fazia música boa, que estava feia, gasta e quem vive de passado é museu. Como assim? Michael Jackson tinha praticamente a mesma idade e ninguém criticava ele por fazer música. Ele estava praticamente uma caveira com todos os problemas que passou na vida, mas ninguém falava mal dele (só da pedofilia, mas isso é outro assunto). E Rolling Stones? Eles continuam lá tocando, cantando, mas quem se atreve a falar mal deles? Mas todos adoram falar de Madonna. Que está velha, gasta, feia, que não presta para dançar, está sem graça, o escambau. E o mesmo veneno corria com Christina Aguilera: que ela era puta, vadia, vagabunda, vulgar. E com Britney, em seus tempos terríveis, tudo foi uma desgraça: ela era drogada, careca, bêbada e estava tendo problemas judiciais. O que eu estava reparando é que as pessoas falavam demais das cantoras. Mas pouco dos cantores. Ninguém se incomoda com homens que queiram cantar até os 80. Mas quando é uma mulher, vestida com shorts e minissaia, namorando um cara com a metade da idade dela, todos se incomodam.
E foi aí que passei a ter consciência do feminismo que eu tinha. Porque eu percebi que se eu queria defender o que eu considerava minhas divas, eu tinha que ter argumentos. E eu encontrei argumentos no feminismo que serviram não só para isso, mas também para tudo que eu fizesse na vida. Nesse ponto entrou o blog EscrevaLolaEscreva e juro que não é porque estou puxando o saco, mas realmente mudou alguns conceitos e fortaleceu outros. É simplesmente porque tinha coisas que eu nunca tinha parado para pensar como cavalheirismo e aborto. Mudei várias idéias minhas novamente, adaptei-as à minha realidade e me tornei uma defensora de mulheres. Acabei indo além do feminismo: passei a defender mulheres. Eu sou totalmente parcial nessa questão: eu sempre vou defender mulheres. Em qualquer caso, sempre vou defendê-las. Eu defendo todas as "putas" que a sociedade abomina, defendo todas as donas-de-casa que querem reconhecimento, defendo todas as moças que querem trabalhar e não casar, defendo as que não querem ter filhos e defendo as que querem ter muitos filhinhos. Defendo as doutoras, professoras e eu, pessoalmente, encaro cada pequena vitória como pessoal. E eu tento passar isso para minha prima. Apesar de ela crescer na moda, nesse meio que eu acho que estão sexualizando demais a criança com sapatinhos de salto e coisas do tipo, eu tento passar o meu feminismo para ela. E eu fico feliz que dá resultado. Eu fico feliz ver que tem pessoas que mudaram seus conceitos sobre Christina Aguilera quando eu passei a apontar a hipocrisia da sociedade que mal repara na voz dela, e na mensagem que ela passa, e sim nas roupas que ela usa. E eu fico feliz de perceber que o feminismo é a corrente que encontrei para minha vida, mais forte do que qualquer outra. Porque o feminismo defende a igualdade entre gêneros, e eu tenho o sonho de ver o dia que as mulheres não recebam mais a culpa por serem estupradas.
Mas às vezes sempre me pergunto se vai adiantar. Só que eu tenho que acreditar que vai adiantar, que toda a nossa luta irá em frente. Por que se as feministas não defenderem e apoiarem a mulher, quem vai ajudá-las?
Post feito aos 46:00 do segundo tempo para o concurso A Origem do Meu Feminismo, do blog Escreva, Lola, Escreva. Fiz às pressas porque passei esses dias envolvida com uma prova, com a Olímpiada de História e com a letargia mental que me fazia adiar tudo que tinha que fazer, como postar no blog! Espero que me entendam...