terça-feira, 24 de julho de 2012

sobre valente, disney e ligações emocionais


[ aviso de spoilers. gigantes. espetaculares. assista ao filme primeiro, please. e isso é uma análise sobre disney também LOGO ]

Eu assisti Valente sábado e saí do cinema maravilhada. Aquela sensação de "eu vi algo que valeu a pena gastar centavo do meu dinheiro". Aquela sensação de "eu compro o DVD desse filme" (não, não o Blu-Ray porque sou pobre e nem aparelho desse troço novo eu tenho). Aquela sensação de eu ter me sentido representada em algum filme de desenho animado - coisa que eu não sentia desde... Mulan. E Pocahontas.

Eu vi alguns homens gritarem pela internet coisas como "filme idiota", "filme babaca", "filme clichê", "filme previsível" e, sinceramente, tenho que ser bem sexista assim, mas eles não diriam essas coisas se fossem mulheres. Em nossa linda sociedade (só que não), homens são criados vendo filmes diversos - Homem-Aranha, Toy Story, Procurando Nemo, Harry Potter e uma série de filmes cujos os protagonistas são homens e histórias se passam em torno de homens contra homens com apoio de outros homens. Mulheres normalmente são coadjuvantes nesses filmes (alguns com pouco grau de importância, outros sendo muito importantes como Harry Potter) e se for um filme de super-herói, é uma mulher com curvas estonteantes. Mas nós, mulheres, nessa sociedade binária em que vivemos, somos criadas assistindo filmes de princesas. Claro que vemos Homem-Aranha e Toy Story e torcemos por Harry Potter, mas nós temos uma criação que nos condiciona a torcer e nos identificar com princesas.

A Disney fez dez filmes de princesas para gente, antes de Valente. Há Atlantis - O Reino Perdido, mas o pobre do filme é tão flopado que mal aparece na série Princesas, por exemplo, que nem tô contando. Também não estou contando Meg (Hércules) ou Esmeralda (Corcunda de Notre Dame). Estou contabilizando aqui a Branca de Neve, Cinderela, Bela Adormecida, A Bela e a Fera, A Pequena Sereia, Pocahontas, Mulan, Tiana, Rapunzel e Jasmine. Nós temos essas dez princesas como referências infantis. Mesmo que nossos pais não nos incentivassem a assistir esses filmes, nós temos essa influência de todos os cantos: nos cadernos que compramos, nas mochilas que usamos, nas roupinhas que vestíamos, nas brincadeirinhas nos quais a gente dizia que princesa era. 

Elas são a nossa referência do que queremos ser, da aparência que queremos ter, do comportamento que adotamos. 

eu emociono horrores com esse começo ok ~ from / lovelydisney

Todas elas se casam no final. Todas elas são tidas como lindas, atraentes, apaixonantes. No primeiro de todos, Branca de Neve (1937) é totalmente passiva. A outra única mulher é sua madrasta, a vilã maligna. Todos os outros personagens (humanos, diga-se de passagem) são homens e bondosos. O caçador que não a mata, os sete anões que a ajudam, o príncipe que a salva. Branca de Neve, feito nos anos 30, é uma princesa que nem se digna a bater de frente, simplesmente foge, cai nas tramóias da madrasta algumas vezes e então é salva com um beijo. Temos Cinderela, de 1950, cujas vilãs são a madrasta e suas duas filhas. Mas temos a fada-madrinha e, pelo menos, Cinderela se dá ao trabalho de ir ao baile. O depois é determinado pelo príncipe. Mais uma vez, o final feliz é o príncipe se casando com ela. Temos, então, A Bela Adormecida (1959). Ela, ao menos, conhece o príncipe e se apaixona por ele antes. Podemos perceber muito sutilmente uma certa mudança em relação à ela querer escolher o seu príncipe. Então ela é enfeitiçada, cai em sono profundo e o príncipe luta com a bruxa que vira um dragão, a vence e, amém, ambos vivem felizes para sempre.

E então temos um salto, no qual passou a Revolução Sexual dos anos 60/70 e depois o backlash dos anos 80. A Disney passou por maus bocados com a morte de Walt Disney, mas se restaurou com A Pequena Sereia, em 1989. Assim como as outras, Ariel é órfã (ok, Aurora não é realmente órfã, mas pensa que é, o que dá no mesmo psicologicamente falando) e isso significa que ela não tem uma referência materna. As outras mulheres são suas irmãs que aparecem pouco. O seu pai é o Rei e a reprime constantemente, e Ariel deseja conhecer a terra, a superfície. Ao conhecer Eric, o príncipe, ela resolve pedir ajuda à Úrsula, uma bruxa, e troca sua voz por pernas. E assim pode viver na terra ao lado de Eric, sem poder falar. E assim temos mais um filme para nós, garotas, no qual a protagonista sacrifica algo precioso. E no final, a recompensa é um casamento.

Dois anos depois, em 1991, temos A Bela e a Fera que foi o primeiro filme animado que ganhou um Oscar de Melhor Filme. Nós vimos aqui, pela primeira vez, a protagonista se dando ao luxo de rejeitar um pretendente por considerá-lo fútil, porque Bela gosta muito de ler. Seria muito animador se ela não virasse a prisioneira da Fera e então se apaixonasse por ela. Nada contra Síndrome de Estocolmo, mas que tipo de mensagem estamos passando à nós mesmas, que temos Bela como nossa favorita muitas vezes por nos considerarmos inteligentes e ansiosas pra conhecer o mundo lá fora? Bela se vê em uma relação claramente co-dependente da Fera, e o final do filme é, novamente, o casamento entre ambos - a Bela aprendeu a amá-lo, a Fera aprendeu a ser menos fera, digamos assim. E o vilão (um vilão homem) morre.

Temos em seguida Aladdim (1992), no qual o protagonista é um homem, Alladim, um ladrãozinho de rua que se apaixona pela princesa, Jasmine. Jasmine recusa todos os pretendentes. Ela é atraente, bonita, e tem a pele um pouco mais escura do que as princesas anteriores - o que significa um pouco mais de representação. Sua determinação em recusar os pretendentes e se apaixonar justamente por Aladdim demonstra que a Disney deu um pouquinho mais de vontade própria à uma princesa - mas isso é muito tímido considerando a época: anos 90, quando mulheres já chefiavam suas famílias e precisavam serem respeitadas como iguais. Lembrando: nós absorvemos essas princesas como referências. Nós aprendemos a sermos passivas como Branca de Neve, a sermos atraentes como Jasmine, a sermos dóceis, meigas e gentis como Aurora, Bela, Cinderela.

que gif bonito de Cinderela ♥ /from esqueci de que tumblr peguei sorry =(

Em seguida, temos finalmente princesas realmente ativas: Pocahontas em 1995 que, assim como Jasmine, é princesa e o homem que conquista seu coração não tem sangue real, e ela - opa, opa! - não termina com nenhum homem no final. Ela precisa ficar na Nova Inglaterra pelo seu povo e é isso que faz, quando John parte para Inglaterra. Em Pocahontas 2 (1998), Pocahontas termina o filme com outro John que ela conheceu no segundo filme, e não o John Smith (o cara gatão que todas as menininhas babavam). Achei inusitado. E então temos a Mulan de 1998 que é chinesa, que não tá muito afim de casamento e quando o país entra em guerra, ela vai lá, corta o cabelo cantando Reflection (na linda voz da minha linda Christina Aguilera) e vai pra guerra disfarçada de homem. E ela vai lá e vira exemplo pros marmanjos que a acharam muito fracote. Esse animado, em comparação com os outros, é praticamente subversivo: não é só uma mocinha que não tá atrás só de um marido, mas que luta pelo seu povo assim como Pocahontas. E subverte os papéis de gênero quando amarra a faixa e se faz passar por homem, vivendo em um acampamento militar, morrendo de medo de que alguém a descubra. Aí no final é oferecido um cargo pra ela e ela recusa pra morar com o maridinho que ela arrumou no acampamento. As feministas choram.

Aí nós crescemos assistindo esses filmes todos e tal. Reparando que as mais libertárias são justamente as que não possuem o panorama europeu e, sim, de "um outro povo". No caso, Pocahontas que é índigena e Mulan que é asiática. Aí em 2009, depois de todos esses filmes como Toy Story, Procurando Nemo e Madagascar, a Disney resolve lembrar de suas raízes e fazer um filme de princesa. Claro que nós, garotinhas que temos uma ligação profunda, emocional e perversa com a Disney (aka eu), adoramos a notícia. A Disney, então, resolve fazer sobre uma princesa negra. A primeira princesa negra. A primeira princesa que tem um emprego. A primeira princesa que tem uma amiga humana, normal e tudo o mais. E a primeira vez que é o pai morto e a mãe viva e ela tem uma boa relação com a mãe (embora a mãe não apareça muito). É a Tiana, de A Princesa e o Sapo. O filme é bem digno, Tiana é super diva mesmo na sua versão sapa e temos mais uma referência infantil, mais positiva que as outras. Quanto ao príncipe, se eu não estiver muito enganada, ele era um malandrão e ambos aprendem a se conquistar. Final: casamento. Mas temos um progresso. Progressinho, vamos. Era pra ter sido maior, vide a época, mas bora lá.

E então, em 2010, a Disney lança Enrolados que é simplesmente... não consigo não gostar do filme. Rapunzel é a coisa mais meiga do mundo. O filme não é mais em 2D, e Rapunzel é bem o estereótipo das primeiras princesas: branca, hetero, olhos azuis, cabelos loiros, doce, ingênua. Mas ela  tem algo de diferente das outras. Ela é ingênua porque viveu a vida toda trancada em uma torre, cercada de livros e brinquedinhos, querendo muito viver o mundo lá fora. Quando um ladrão (aliás, que fixação a Disney tem com ladrões!) invade a torre dela tentando fugir dos soldados do reino, ela sabe muito bem se defender com sua frigideira e seus longos cabelos dourados. Ela não precisa dele para salvá-la o tempo todo, por mais bobinha que seja. Ao entrar em um bar cheio de homens bêbados e agressivos, ela simplesmente os faz cantar sobre seus sonhos e vamos combinar que essa é uma ótima cena. Se você odeia musicais e odeia animados, odiará essa cena. Mas enfim ♥

Eu tenho um amor muito grande por Enrolados (até por ser emocionalmente ligada, já que foi o primeiro filme que vi em 3D e fiquei tão emocionada com as lanterninhas que tentei pegá-las com a mão como uma idiota ok), mas tenho que reconhecer: no âmbito mulheril da vida, Rapunzel não foi nenhum progresso. Não diria que foi um regresso: ela simplesmente manteve um padrão. Rapunzel, enquanto Rapunzel, não me incomoda. Mas ela ser a norma... aí é um incômodo.

COMO odiar essa menina, COMO? é até pecado, gente ~ from /lovelydisney

E então, 2012, estréia Valente.

Eu me animei a ver o filme porque, como já disse, tenho aquele apego pela Disney. Eu sei que os filmes são machistas. Eu sei que eles refletem um padrão de comportamento que eu odeio que as meninas sigam. Eu sei que não há diferença entre amar um cara que te mantém prisioneira (aka A Bela e a Fera) e amar um cara que arranca o motor do seu carro para você não ir ver seu amigo (aka Crepúsculo). Eu sei que há níveis absurdos de submissão, condicionamento, passividade que exigem de uma mulher nos filmes da Disney. Mas é aquela coisa: eu amo Disney mesmo com dezoito anos de idade. Eu amo as músicas. Eu amo as princesas. E você que ainda tem os bonequinhos de Flash e Super-Homem?

E eu não só amo princesas, como idolatro e venero as ruivas. O cabelo alaranjado me é algo muito especial, até pela raridade da coisa. Tal como as pessoas idolatram diamantes porque você não encontra diamante dando sopa por aí, eu amo cabelos ruivos porque, na minha cabeça, ou você nasce com esse cabelo ou você se desdobra em clareamentos pra parecer uma ruiva. E ainda assim, nem sempre fica convincente. E não é apenas cabelos ruivos, são longos volumosos cabelos encaracolados de tonalidade alaranjada. Quer dizer... 

eu absolutamente amo o cabelo dela. muito. mesmo. ~ from /lovelydisney

Eu fui ao cinema apenas sabendo que era sobre uma princesa que não queria casar, e sabia que tinha ursos na história. Não sabia muita coisa, portanto. E eu saí do cinema feliz.

Primeiro, pela questão gráfica. Há uma beleza extraordinária do filme. Deu para perceber que os 185 milhões de dólares - o orçamento do filme - pagaram cada movimento de cada cacho ruivo, cada folhinha da grama, cada aspecto da luz mágica, cada sarda, cada pequeno detalhe que a Disney+Pixar tão minuciosamente colocaram. Eles adoram cuidar dos detalhes e, nesse caso, fizeram bem feito. Eles cuidaram absolutamente de tudo. A parte gráfica é realmente admirável. Eu apenas invejo pessoas que trabalham nessa área. 

E em segundo lugar, por todas as coisas que Merida trouxe.

É o primeiro filme que não há nenhum príncipe. Em nenhum momento há um "par" pelo qual Merida se apaixone e se case com ele no final. O filme não é sobre um romance. Não é sobre o romance entre duas pessoas e seus obstáculos. Não é sobre Merida tendo que escolher entre três candidatos. É sobre Merida lutando pelo direito de não ter que escolher. De optar por ignorar todos e ficar sozinha. "Eu quero ser livre" diz ela, e então ela expressa um desejo de milhares de mulheres. Livres de terem que ter um homem, livres de terem que aceitar as imposições sociais condicionadas ao gênero, livres dos vestidos apertados, livres de tudo. 

Depois, é um filme cujo foco principal é entre Merida e sua mãe, Elinor, a rainha. Atenção: é o PRIMEIRO filme da Disney cujo foco seja na relação entre duas mulheres e que uma não está querendo matar a outra. Mães são raras na Disney (elas só vivem em A Bela Adormecida, Mulan, A Princesa e o Sapo e Enrolados. Porém Aurora acha que é órfã, Rapunzel vive com a sequestradora achando que ela é sua mãe e as mães de Mulan e Tiana são, tipo, ~quem liga?~), geralmente sendo assassinadas logo no começo, fazendo as princesas perderem suas referências maternas e tudo o mais. A Disney gosta muito de matar mães e isso é um assunto que merece uma monografia a respeito. Além disso, não há muito contato feminino para as princesas. Elas costumam ter animais como amigos e eles são, geralmente, do sexo masculino. Não há realmente alguma princesa com uma grande amiga (exceção: Tiana). O máximo é mulheres que agem como tutoras (A Bela Adormecida, Cinderela) e eu acho isso mais nocivo do que alguumas vilãs (eu contabilizei: de dez filmes, tirando Valente, cinco tem vilões homens e cinco tem vilãs mulheres. Os outros filmes que não estão contabilizados como Hercules, Corcunda de Notre Dame, Anastasia - que não é da Disney - e Atlântida, três tem vilões masculinos e eu não consigo lembrar qual era o vilão de Atlântida). Por isso é positivo que haja Valente, no qual Merida - cercada de homens como seu pai, seus três irmãos, os diversos homens no reino - tenha sua mãe como amiga e aliada, não como uma oponente. 

momento fofo com merida baby <3 ~ from /you-can-cancel-quidditch

Aqui se encerra parte das minhas críticas aos homens que consideraram o filme "clichê". Eles simplesmente não sabem como funcionam os filmes de princesas. Eles simplesmente acham natural que um filme não tenha nenhuma história romântica por trás ou que não termine em um casamento, porque muitos filmes masculinos não possuem essa subtrama romântica. Isso simplesmente não é importante nesse contexto. Porém, se eles entendessem o quão forte é essa subtrama romântica nos filmes feitos para as mulheres, iriam entender o impacto que é um filme animado pela Disney de princesa que não possui absolutamente NENHUMA história romântica por trás. Se eles simplesmente vissem Valente como o que ele é - um filme de princesa - iam entender o quão importante ele pode ser em termos de referências. 

Algumas pessoas discorreram sobre como Merida não era suficientemente feminista porque, no final, ela fala sobre a possibilidade de casar. Eu achei isso absolutamente insuficiente. Ela não fala que irá casar. Ela simplesmente fala que pensará nisso outra hora. Mas o que ela mais queria - a liberdade de escolher - ela conseguiu. Ela conseguiu que sua mãe a aceitasse com os cachos soltos, com a sua comilança despropositada, com seus arcos e flechas. Ela conseguiu ter a possibilidade de escolha sobre seu futuro e é sobre isso que se trata o filme. Sobre ela ser de uma determinada maneira e sua mãe a aceitar do jeito que ela é. Você não precisa romper com a família para obter isso. Com diálogo, com ambos os lados cedendo em pontos aqui e ali, há um consenso. E eu acho isso tão importante, que fico triste ao ver próprias feministas desvalorizarem isso. É como se elas ignorassem tudo o que Merida passou para se focarem em "ela é mimada", "ela é chata", "ah nem senti empatia por ela sorry". Aí algumas ficam tão "nem é tão feminista" como se houvesse um carimbo para essas coisas. Como se tivesse carteirinha de feminista para determinadas obras. Ah, Thelma e Louise morrem no final, nem é tão feminista assim. Ah, Mulan escolhe se casar no final, bora desqualificar o filme todo. Acho indigno. É uma análise rasa, superficial e insuficiente. 

Eu não vou dizer que Valente é feminista. Eu acredito que as pessoas de Pixar queriam falar sobre uma princesa indomável que não quer se casar e lutou para isso. O erro de Merida não foi querer ser livre, mas foi tentar mudar a mãe arbitrariamente, sem tentar um diálogo real. Com isso, pagou o preço de quase perder sua mãe, tendo que acompanhá-la constantemente e a salvando o tempo todo. Ela teve que arrumar os problemas que deixou o reino - ao fugir do casamento exigindo a própria mão (uma atitude ousada e corajosa, convenhamos), ela acabou provocando uma briga entre os clãs e ela o fez na base do diálogo. Essa foi a valentia dela - tão acostumada ao arco e flecha - acabou tendo que se posicionar diante de milhares de homens furiosos e argumentar sobre liberdade de escolha. Ela acabou assumindo os erros de sua impulsividade (que gosto de chamar de ~diva absoluta~), e aprendendo a entender a mãe que a ama de verdade. O relacionamento entre ela e Elinor tem muitas nuances. Elas se amam verdadeiramente e brigam uma pela outra. Merida luta com o próprio pai, pronta para morrer para salvar a mãe. Elinor luta com outro urso completamente enfurecida, perdendo qualquer senso de decoro próprio de damas, quando vê Merida ameaçada. 

um dos melhores momentos ♥ ~ from /lovelydisney

Outro aspecto que amo em Valente é que a aparência física, por mais exuberante que seja, não é levada em conta pelos protagonistas. Não há nenhum personagem que fique "oh tão bela com esses cachos ruivos". Ela não inspira suspiros nem nada do tipo. Merida é linda aos meus olhos, mas essa não é uma característica importante sobre ela. O que é importante sobre ela é ela ser tão ousada e impulsiva a ponto de, no meio de uma delicada reunião com outros clãs, exigir a própria mão recusando todos os outros pretendentes, é ela ser infantil a ponto de negar o próprio erro ao tentar justificar o que aconteceu à mãe jogando as responsabilidades para cima da bruxa e depois conseguir ser corajosa para entender que ela precisava terminar com o caos absoluto entre os clãs, explicando a própria escolha não como um ataque à eles, mas como uma escolha pessoal e a estendendo para os outros. "Escrever a própria história" ela diz e os outros concordam, porque os pretendentes também não foram interrogados em nenhum momento se queriam casar com ela. É algo inusitado para eles, mas é uma tradição que ela quebrou. Todas essas características são vistas em Merida e a fazem tão humana quanto qualquer um de nós, e a fazem ultrapassar a aparência no qual mulheres, principalmente princesas, acabam se limitando no cinema, especialmente o cinema para as massas.

Além disso, há um pequeno tópico que muito apreciei em Valente: Merida come. Come pra valer. É sabido que mulheres, no cinema, comem pouco ou se comenta sobre o que elas comem. A comida é vista de forma pesarosa, negativa, simplesmente tão engordativa em filmes, novelas, séries, livros. Fala-se de calorias, kilogramas, carboidrados, gorduras e poucas vezes há uma mulher comendo de verdade sem nenhuma culpa. A mãe fala sobre a quantidade de comida que Merida come, e ela absolutamente não liga para isso. Isso é algo dela e é algo que eu amo: a quantidade de vezes que mostra Merida roubando maçãs, pãezinhos e tantas outras coisas. 

Uma das críticas apontadas por feministas foi "porque a mãe tinha que ser a repressora?". Sinceramente, acho a pergunta estúpida. Porque o filme se trata do embate de uma filha que quer ser livre e de sua mãe que tenta enquadrá-la. Fala do relacionamento entre mãe e filha. Há esse confronto de idéias diferentes e é essa a idéia central do filme, e eu acho isso tão óbvio que quase me ofendo de alguém realmente achar que isso é um argumento sério. Há pouquissímas mães em filmes animados, todo mundo sabe disso. Há pais variados, idem. Mas um filme que fale de pai repressor x filha que quer ser livre tem uma dinâmica muito diferente de mãe repressora x filha que quer ser livre. Isso é evidente, tão claro quanto água. 

Quanto ao argumento mais chato de todos que é "Merida é mimada e não senti nenhuma empatia", nem tenho algo a comentar. Empatia é algo pessoal. Eu, pessoalmente, senti muita empatia e identificação por Merida. Eu amei Merida muito mais do que amei o velhinho ou o garotinho de Up (filme que todo mundo ama, menos eu que considero a idéia de uma casa subir por balões tão inverossímil que nem sei o que achar), muito mais do que gosto de Nemo, o peixinho-palhaço, muito mais do que gosto do ratinho em Ratatouille (eu adoro esse filme, mas convenhamos: ratos + restaurante = nojento). Todos esses são filmes da Pixar absolutamente endeusados. Pessoas vivem comparando tais filmes com Valente para dizerem "olha, é inferior à todos esses". Eu não acho. Eu, pessoalmente, achei Valente superior. Em termos gráficos (os cabelos ruivos absolutamente reais (vide a cena no qual Merida se molha e vemos os cachos molhados tal qual cachos reais), as paisagens estonteantes de Escócia, as expressões faciais, os pequenos detalhes como as flechas de Merida), em termos de roteiro (é uma história redonda, no qual as coisas se explicam, apesar da bruxa poder ser substituída por qualquer coisa), em termos de mudanças de paradigma (ser um filme de princesa que não tivesse uma subtrama romântica, por exemplo), em termos de alívio cômico (oferecido pelos irmãozinhos dela, por exemplo), em absolutamente qualquer termo.

um dos irmãozinhos de Merida ♥ ~ from /mawitzap

Eu entendo você que ama mais Toy Story que fez a todos nós chorarem copiosamente na parte final do terceiro filme quando Andy entrega seus brinquedos à garotinha (eu mesma chorei só de me imaginar doando minhas bonecas, que ainda tenho) ou ama mais Procurando Nemo (é muito difícil não curtir o baleiês de Dorothy), mas eu acho absolutamente injusto pegar Valente e dizer que ele é ruim porque você acha a protagonista mimada (sendo que Nemo é tão mimado quanto e não vejo ninguém falar um "a" dele) ou a acha sem empatia (e aí eu acho você sem noção, porque você não sentir empatia é diferente de "não ter empatia" - é muito fácil se identificar com Merida: milhares de garotas adolescentes se sentem incompreendidas por suas mães e/ou tem longos cabelos cacheados dos quais sentem uma enorme vergonha). Eu acho ainda mais injusto tecer milhares de elogios ao La Luna, curta que Pixar apresentou antes, que é lindo sim, mas os críticos tem uma estranha mania de falarem sobre como a relação avô-pai-filho é abordada de forma emocionante no curta e então criticarem Valente com sua relação mãe-filha, como se abordar mães-e-filhas não fosse importante. 

Eu ainda não vi uma crítica à Valente que fizesse sentido de verdade. Eu vejo pessoas chamando Merida de mimada, pessoas que criticam "não ser tão feminista" (mesmas pessoas que criticam Jogos Vorazes e parecem que nem leram o livro e/ou tiveram uma interpretação totalmente diferente, baseada totalmente no gênero, esquecendo-se totalmente do contexto), pessoas que esperavam por Merida ensanguentada cheia de arcos e flechas. Mas, gente, Valente é sobre uma princesa que acaba descobrindo que a verdadeira coragem está em assumir suas posições e idéias. Quando ela deixa de agir como uma adolescente mimada e se porta como sua mãe (não como uma dama, mas como uma pessoa racional e segura do que fala), ela consegue, então, o direito à sua liberdade. É nisso que consiste a sua valentia. E é esse tipo de referência que as meninas precisam ter para suas vidas: entenderem que elas podem ser o que quiserem. Elas só precisam ser seguras do que querem ser. 

espero ver esse começo eternamente ok ♥ edição do lovelydisney.tumblr.com

14 comentários:

Natyy disse...

.................. O que dizer? rs

Eu amei o texto, absolutamente, amei a crítica, a análise dos outros filmes de princesa (aliás fiquei com vergonha de nunca ter visto A Princesa e o Sapo, que era um dos meus contos de fada preferidos, e tô aqui baixando rs. E quero acrescentar que amo MUITO Enrolados, porque Rapunzel sempre foi meu conto de fadas preferido EVER, até hoje tenho trauma de cortar o cabelo por causa dele. <3), e fiquei com ainda mais vontade de ver Valente.

Sabe que em parte me lembrou Liberte Meu Coração, de Meg Cabot? O livro também trata de uma ruiva de cachos rebeldes, ela mesma rebelde, apaixonada por arco e flecha. A diferença é que o livro envolve (sendo Meg Cabot como é) uma trama romântica. Mas enfim. Só queria dizer que amei o post, não tenho nenhum comentário significativo para fazer, visto que nem vi o filme ainda.

Perfeito, Luninha. <3

L disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
L disse...

Mas é aquela coisa: eu amo Disney mesmo com dezoito anos de idade. Eu amo as músicas. Eu amo as princesas.+++

Ainda não vi Valente, então até agora Rapunzel é a minha princesa favorita. Mesmo ela não sendo toda girl power como Mulan, que era a minha preferida antes de Enrolados,ou Pocahontas ela é destemida, tem seus próprios sonhos, sabe se virar sozinha e eu a amo muito.
Merida tem tudo pra desbancar a Rapunzel. E eu fico muito feliz com o novo perfil de princesas que a Disney está criando. O quento esse perfil tem evoluído. Princesas são um forte referencial pra crianças, e quando eu tiver uma filha, ficarei mais tranquila em saber que ela terá garotas destemidas, guerreiras, valentes como referência mesmo.
Faço questão de ver esse filme com minha mãe. Acho o máximo que Merida tenha mãe, que tenha conflitos comuns entre elas; achei isso inovador.

#Amaanda mazzei. disse...

Amei o post!
Uma ótima crítica ^^
Ainda não assisti Valente, mas to querendo muito ver esse filme!
Beijos!
http://www.expressodenarnia.com/

Gabi Loka disse...

Como assim só 3 comentarios??? Um post desse merece todos os comentarios!
Como assim 18 anos??? Duvido! Essa analise tá muito analisada pra uma mente normal avoada de 18 anos U_U Nossa, queria saber me expressar que nem você! *vergonha* meus quase - glup - 23 anos não me fizeram efeito ainda rs

Achei muito completa e considerando todo um historico. A unica coisa é que, por mais que a Pixar agora seja da Disney, eu não diria que elas tenham se fundido. O estilo da Pixar é muito mais.... maturo (talvez seja essa a palavra). Em cada um dos (grandes) filmes deles sempre tem uma mensagem uma coisa que te pega desprevenido emocionalmente. Bom, eu me sinto assim ainda mais com os mais recentes. A Pixar tem a capacidade de fazer uma animação engraçadinha e colorida para as crianças e ainda com profundidade para os adultos. Não tão profundo assim Nemo tambem trabalha com a relação Pai x Filho. Um filho ousado e um pai medroso que no final aprende a ser mais relaxado. Acho muito bonito o filme e as coisas e as aventuras, mas como experiencia gera sabedoria Valente foi alem em uma relação similar e ainda tem o bonus que as duas (mãe e filha) aprendem (muito) uma com a outra.

Eu não a considero uma princesa Disney justamente pelo fator Pixar. Se fosse realmente Disney seria no minimo uma princesa cantante! rsssss

Saindo um pouco de Valente vou dizer que fiquei frustrada com Princesa e o Sapo. Achei que ela ficou meio chata. Não achei ela cativante o suficiente. E o principe... aff sei la. muito mole, muito deitão. Eu achei que ia gostar dele quando ele apareceu todo cantante e dançante e o jazz... aaaah o jazz achei que fosse gostar mais desse filme. Terminei meio decepcionada. Vou dizer que tb não gostei deles serem sapos a maior parte do tempo. Opnião minha.

Mas voltando, amei a figura da Merida. Seus cabelos, seu corpo, seu temperamento. Amei que apesar das diferenças elas se amam e lutam por si. La estava eu chorando com elas a beira de um rio pegando peixe.... (LLLLL)


Amei todo o seu texto! E quando crescer quero escrever que nem você. Um beijo pro meu pai pra minha mae e outro especialmente pra vc! Muah!

Juliana Brito disse...

As princesas são para sempre! Eu sou apaixonada por elas até hoje, nos meus 29 anos e conheço um monte de outras apaixonadas ainda mais velhas.As coisas que a gente gosta não precisa deixar de gostar porque cresceu. basta que você não saia na rua de coroa de plástico na cabeça e fantasia, como fazia quando era criança e as pessoas achavam engraçadinho (agora vai ser puro ridículo).
O texto está realmente muito bom, e diga às feministas que casar não é uma traição à causa, desde que essa escolha seja 100% sua, e que você casa apenas porque você quer estar com aquela pessoa (não porque alguém diz que você tem que casar - seja a sociedade, a religião ou a família). Tirar o mérito da Merida em sua luta pelo poder de escolher porque ela cogita se casar é desvirtuar a ideia feminista. Mais: é tirar dela o direito de escolha, dizendo que as mulheres não devem se casar, mesmo que queiram.

Caroline de Paula disse...

Maravilhosa crítica!!! Você escreve muito bem!!! É incrível como consegue captar todas esses detalhes na trajetória da Disney com as princesas. Embora eu não me considere feminista, mas não senti falta de um romance em Valente (assisti ontem). Eu achei muito positivo mostrar a relação com a mãe, geralmente as meninas estão revoltadas com os pais, nos filmes e livros (não só da Disney. A impressão que dá é que todas as meninas são órfãs de mãe, pq quase todo filme é assim, ou a mãe já morreu ou é inútil na história). Absolutamente MARAVILHOSA a sua crítica, amei demais Parabéns pelo trabalho!
beijinhos
semacordes.blogspot.com

Anônimo disse...

Como estou orgulhosa de você. TE AMO.

Cláudia disse...

Amei sua análise ficou muito bem construída! Eu amei o filme Valente, e você já falou tudo e mais ainda do que eu poderia falar, então...

Roberta Navega disse...

Olá Luna...amei sua critica...muito bem construída.
Quanto aos seus 18 anos não se preocupe, tenho 33 e também amo os desenhos animados e as princesas e agora estou apaixonada pela Merida, ela é a princesa que gostaria de ver as meninas de hoje em dia se espelhando nela, gostaria que esse filme tivesse sido lançado a trinta anos atrás.
Estou começando a fazer minha monografia sobre o papel das mulheres nos desenhos animados e pensando seriamente em pedir sua ajuda rs.
Parabéns pelo texto.
Roberta Navega

Roberta Navega disse...

Olá Luna...amei sua critica...muito bem construída.
Quanto aos seus 18 anos não se preocupe, tenho 33 e também amo os desenhos animados e as princesas e agora estou apaixonada pela Merida, ela é a princesa que gostaria de ver as meninas de hoje em dia se espelhando nela, gostaria que esse filme tivesse sido lançado a trinta anos atrás.
Estou começando a fazer minha monografia sobre o papel das mulheres nos desenhos animados e pensando seriamente em pedir sua ajuda rs.
Parabéns pelo texto.
Roberta Navega

Roberta Navega disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
contasdeporcelana disse...

É a explicação mais incrível e coerente sobre porque Valente é O desenho animado. Amei o post!

Anônimo disse...

Esse filme bem que podia ter uma continuação.