quinta-feira, 30 de setembro de 2010

jogando o dado para cima

"É a luxúria, nascida dentre a paixão, que se transforma em ira quando insatisfeita. A luxúria é insaciável, e é um grande demônio. Conheça-a como o inimigo."

Eu não sou nem evangélica, nem católica. Não faço parte do cristianismo, não sigo Jesus e desdenho a Bíblia. Não acredito em pecados.
Mas... eu amo os pecados.

A luxúria que nos envolvem em tabus, a ira que nos prendem à vergonha, a avareza que nos fazem menos populares, o orgulho que sempre é ferido, a gula que nos enchem de culpa, a preguiça que nos anestesia e a inveja, essa sempre mortal, que nos enchem com o sentimento de rancor e inferioridade. São os sentimentos mais humanos, comuns e cheios de verdade que encontramos nas pessoas. São simples e corrosivos, são mortais e singelos. São simplesmente pecados que cometemos o tempo todo, que levamos em frente, que amamos e odiamos. Amamos porque eles nos fazem se sentir mais humanos, odiamos porque eles são o contrário da perfeição. O humano tem horror ao imperfeito. Matamos fetos deformados em inúmeras civilizações, temos nojo de cicatrizes, verrugas, deformações físicas e qualquer coisa que ofenda a absoluta perfeição da simetria. Como não exigir o mesmo dos sentimentos? Mas não somos santos.

Somos como as cópias mortais e fajutas dos deuses de Olimpo.

E eu vivo assim, meio que beirando a linha entre o certo e errado, sempre zombando do céu e temendo o inferno, sempre olhando para cima e caindo embaixo. E ora eu peco sem culpa, sem sentir remorsos, com o sorriso de quem ama a liberdade. E ora eu junto as mãos em uma reza silenciosa à mim mesma, lembrando que eu não serei tão invejosa, tão preguiçosa, tão avarenta. Prometo a mim mesma que serei uma pessoa melhor e sempre caio no mesmo erro, como se jogasse um jogo de azar e não aprendesse que a roleta nunca irá parar naquele número. Às vezes me imagino como se estivesse em um cassino, com o batom mais vermelho do mundo, e jogasse os dados para decidir o meu destino. Eu decido qual pecado vou cometer naquele dia. E qual virtude que vou ter para balancear as contas. Então, perdão, não posso escolher um somente: eu sou uma garota pecaminosa. Sou alguém que gostaria de ser rica para simplesmente jogar pratos contra a parede sem me preocupar em pagar a conta depois. Também sou alguém que cobiça a conta bancária alheia. Sou alguém que consegue ser generosa e contar piadas sujas demais para uma dama, que grita com a parede de ódio e abraçar outros. Não posso me encaixar em categorias, porque pertenço a todas elas.

Qual é o limite entre o certo e errado? Qual é o ponto que nos sentimos culpados? Qual é o ponto que passa a ser fanatismo? O que é pecar? É ter três amantes? É ter ódio de alguém o suficiente para desejar parti-la ao meio? É sentir no peito aquela invejazinha da amiga que conseguiu passar no vestibular e você não? É não querer emprestar dinheiro para o seu amigo? Qual é o ponto que a nossa moralidade deixa de ser ética e passa a ser distorcida, patrulha, falso moralismo? Qual é o problema com casais bígamos, contanto que eles sejam felizes? Qual é o desvio moral em gays vivendo juntos e em fetiches realizados em lugares feitos para isso? Eles são tão pecadores que não irão para o Reino dos Céus ainda que sejam bons, honestos e que tenham tratado com respeito todas as pessoas que encontraram no caminho? Uma prostituta merece menos respeito do que eu? Uma freira merece mais respeito que eu? Somos todas iguais perante aos olhos divinos ou não? E quando eu quero tanto ser rica feito Madonna estou pecando tão horrivelmente? Ou todos os meus pecados e minhas virtudes são anotadas e depois, quando eu morrer, será feita uma balança e decidiremos qual é o meu destino? Seria mais fácil jogar um dado para cima.

Se der número par, sou santa, número ímpar, sou pecaminosa. Muito fácil de se decidir.


#Texto feito para a Blorkutando. Há quanto tempo!
E vazei, vou ver o debate!

3 comentários:

Jota disse...

Título curioso para o enredo do texto. Diferente. Boa sorte no bk, beijos!

Cláudia Machado disse...

Legal o post! Parabéns pelo primeiro lugar! Mereceu!
Eu também não acredito em pecados... mas não há como escapar deles. E eles conseguem ser tão...atraentes haha
Beijos

Thaís disse...

Os pecados são realmente tentadores,rs. Todas essas suas perguntas eu também já fiz... E olha que eu sou (pelo menos me considero) cristã. Às vezes penso que os pecados é uma criação do próprio homem para manter a tal "ética" tão adorada por eles.
Beijos :*