sexta-feira, 21 de maio de 2010

um pequeno conto real

Malas - Rodoviária - Prédio - Delegacia – Paixão

Havia começado o texto com uma narrativa.
Mas não consigo.

Eu penso em coisas aleatórias para essas cinco palavras. Cinco palavras difusas, formando cenas do cotidiano. Lembranças vagas esparsas. Eu nunca fui muito boa de lembrar coisas, confesso. Os nomes me somem, mas posso repetir as mesmas histórias. Posso repetir a história real de alguém. De uma mulher. Ela combina com essas palavras, talvez.

A história é:

Ela se apaixonou por um cara na loja que trabalhava como gerente. Ele era seu subordinado. Sabe quando você bate o olho e sente que deu certo? Que vai dar certo? Que o amor é tudo e que mais nada interessa? Ela morava em um prédio, num andar qualquer, totalmente sozinha. Ficaram juntos por uma noite, por duas, por três. Semana após semana, os dois queriam mais do que apenas paquera, rolo, azaração. Queriam alguma espécie de casamento, mas sem papel, porque era brega.

Acho que era 1987. Por aí.

Três meses passados, ela o convidou para jantar. A luz de velas, ela deu um presente: uma nova escova de dentes. Um convite, oficial, para ficarem juntos - apaixonados, felizes. Uma paixão que daria certo, independente do que a família dela falasse. Mas tudo bem - felicidade é ter amor, e eles tinham amor. Muito amor em 1988. Mais amor ainda em 1993. E ficaram juntos por uns onze anos - mas essa paixão foi se esgotando lentamente, delicadamente. Volta e meia ela tinha medo de ele ir parar na delegacia, por alguma briga - era muito esquentado. Mas o que mais a matava era as mulheres. As outras mulheres. Pensava nas filhas. Pensava em si. E pensava no orgulho que teria que engolir, caso o deixasse e fosse embora. Sua mãe, seu pai, seus irmãos e irmãs: não falei?

Mas alguma coisa aconteceu e a partir de 1994, as coisas saíram do trilho. Ele esquentou a cabeça demais, não a ponto de ir pra delegacia, mas isso era preferível ao que aconteceu: o emprego se perdeu. Dupla jornada, sustento em dobro, uma única mulher agindo como suporte para toda a pequena família. Redução lenta da comida, bebida e o dobro de dificuldades. Nunca passaram fome, e ela se sentiu eternamente feliz por hoje: pode dizer que nunca passou fome. Mês após mês, as coisas só pioravam. E a paixão sumira. O amor continuava, mas fraco.

Viajaram de uma cidade pra outra, tentando melhorar a vida. Nada adiantou.

Ele era terrivelmente orgulhoso e não aceitava cargos abaixo do que estava acostumado.
Essa foi a ruína.

Ela fez as malas, foi pra rodoviária levando as filhas e disse que ia viajar.
- Bye Bye - disse ela.
- Volte logo, sentirei saudades - ele disse.
- Talvez - e ela foi.

Entre idas e vindas, ela nunca mais voltou.
Entre idas e vindas, ela nunca mais aceitou voltar.
Entre idas e vindas, ela engoliu o orgulho e criou suas duas filhas com sua família.

Hoje?
Ele mora com outra família. Com uma antiga amante que lembra as datas de aniversário das filhas do seu atual marido.

O que aconteceu com as duas filhas?
A mais velha está se formando em biologia em agosto.
A mais nova está escrevendo essa história.


4 comentários:

Claudia disse...

Sua mãe deve ser uma pessoa realmente forte e admirável. E você contou a história de um jeito bastante tocante.
Bjos
(Umrae)

Marcelle(Mah) disse...

nossa parabéns pelo blorkutando,vc mereceu.Claudia está certa essa história foi tocante ainda mais por ser verdadeira,gostei muito.

Bramks disse...

Caraca, Luna, ficou simplesmente MARAVILHOSO. PQP, mostrei pro meu pai, ele ficou uns 3 minutou falando "caraca, muito bom, muito bom". Ficou REALMENTE bom, cara. Parabéns mesmo. Memso mesmo.


Adorei.

Coral disse...

Irmã...
o mais impressionante foi observar essa história de perto... e perceber que a paixão nao havia acabado...nem o amor...