terça-feira, 6 de abril de 2010

dividindo o computador, a mãe e os esmaltes

Quando minha mãe ficou com meu pai (em menos de três meses), ela não sabia que logo, logo ficaria grávida. E depois de sua filha ter quase cinco anos e implorar por uma irmãzinha bonitinha pra brincar com ela, ela não sabia que nesse período meu pai pularia a cerca, engravidaria uma pobre moça e voltaria à relação normal e engravidaria minha mãe novamente, dando à essa garotinha a irmã tão desejada. E por anos a fio, essa família viveu feliz sem conhecer a moça e sua filha fora do casamento. Aí a mãe se separou, mudou de estado com suas duas filhas, deixando o marido sozinho onde viviam. Anos passam, esse marido que foi um pai bem relapso para suas duas filhas, agora distantes, se deparou com a moça com quem pulara a cerca e decidiu viver com ela, assumindo também a filha e aceitando o outro filho.

E somos uma família - na medida - feliz.

Eu sou a menina mais nova. Que tem uma meia-irmã cuja existência era desconhecida até um ano atrás e uma irmã que me quis de "presente" aos cinco anos de idade. Eu não posso dizer muita coisa sobre essa minha meia-irmã porque não a conheço, mas posso dizer muita coisa sobre essa irmã que convive comigo desde que nasci. Ela disse uma vez que nós, irmãos, somos mais próximos geneticamente do que os nossos pais. Porque temos os mesmos pais, tios, primos, porque dividimos a mesma herança, mas usando-a de formas diferentes. Ela nasceu mais branca e de cabelos lisos, sou mais morena de cabelos cacheados. Ela gosta muito mais de salgados, eu prefiro os doces. E dividimos os mesmos gostos por Johnny Depp, The Beatles, Harry Potter.

Quando você tem uma irmã - seja ela mais velha ou mais nova - sua casa se transforma em um front de batalha. De um lado estou eu, armada com todos os argumentos possíveis. Do outro está ela com os piores argumentos possíveis. "Você tem inveja de mim." Golpe brutal no orgulho. "Você me imita!" Outro golpe, duro de absorver. "Você só surgiu porque eu te pedi" pronto, a última cartada, OWNADA. Ela me acha a preferida, a protegida. Eu a acho arrogante e pode-tudo. E dia após dia, cada uma se arma de uma vida completamente diferente, mas igual. Porque, no fundo, eu a odeio. Acho-a metida, arrogante, insuportável e quero me mandar dessa casa para nunca mais vê-la. Só nas festas familiares, e olha lá. Nunca a perdoarei por todas as vezes que ela abusou de sua condição de irmã mais velha para me encher o saco. Também nunca a perdoarei pelas injustiças cometidas - não, eu não peguei o CD, eu não tomei o sorvete - aliás quem toma o sorvete dos outros é você - nem o resto da Coca-Cola, e não sou tão chata assim, você que me enche o saco. Dizem que ter irmãos é saber dividir. Partilhar. Digamos que eu tive um duro aprendizado nisso: não tenho muitas coisas minhas. A maioria dos livros são dela, porque ela quem pode comprá-los primeiro. Os CDs idem, e depois quando eu fui começar a ter gostos definidos, ninguém mais comprava CD, só baixava em mp3. E as roupas, naturalmente, são a pior parte: em quase 100% dos casos, a caçula "herda" uma roupa velha da primogênita. Tática dos pais para economizar dinheiro. Quanto a isso, fui prática. Ficava só com as roupas que eu realmente gostava. E usaria só as minhas roupas. Então hoje em dia aproveito muito mais as roupas que uso, parando de sentir inveja das roupas dela, e ela vive roubando a minha blusa branca com rosas, os meus sapatos brancos e camisetas - já perdi a conta das vezes que tinha que achar uma roupa minha entre as delas. Mas como uso a bota e a maquiagem dela, então tudo fica bem.

Na literatura, é super normal irmãos terem inveja de outros. Caim matou Abel por ciúmes. Dean morre de inveja da coragem em levar uma vida normal que Sam tem. Cebolinha acha um saco cuidar da Maria Cebolinha. Jorge se sente inferior ao Miguel em tudo. Eu entendo absolutamente todos esses personagens. Não há nada mais irritante do que você ser reconhecida como "irmã de fulana" em muitos dos lugares que vai (como eu fui, a vida inteira, até meu primeiro ano no CEFET). Também não faz bem pra uma pessoa ainda meio imatura ouvir de uma amiga que a sua irmã é mais legal. Irmãos são um objeto de ódio que todo mundo ama. Todos compreendem como é absolutamente imbecil, mas compreensível, o sentimento de duas pessoas que são obrigadas a dividirem os pais, a casa, o dinheiro, o quarto, o computador, a atenção de todo mundo em volta. Além de driblarem as malditas comparações em relação ao boletim, beleza, carisma, vida social, personalidade e tudo o que tiver relacionado à vida.

Eu divido os filmes, os esmaltes e a casa. Eu divido minha mãe, o dinheiro da casa e o computador. Eu espero o dia que a gente vá viver cada uma na sua casa, independente. Mas também tenho medo desse dia porque não consigo me imaginar vivendo sem as pessoas presentes na minha vida toda. Uma vez, quando eu estava com raiva por uma briga qualquer, minha mãe me disse: nunca deixe essas brigas irem longe demais. Eu tenho três irmãs a me apoiarem, você só vai ter uma depois que eu morrer. E irmãos são muito diferentes de amigos.

E não é só pelo sangue. Sem querer desmerecer os meus queridos amigos, mas não foi um deles, e sim minha irmã que no auge de sua aborrescência - 13 anos - resolveu que eu deveria ler mais, e começou a ler - em voz alta - Harry Potter e a Pedra Filosofal para mim, me fazendo perder o medo por livros que não tivessem desenhos. Foi minha irmã também que me fez gostar de MPB e rock, quando insistia em me mostrar a música mais legal que ela tinha escutado. Ela me levou em muitas festas e nunca reclamava por isso (ok, às vezes), ela que deu um esporro no menino que me deu um tapa na cara quando eu fazia 2ª série a ponto do garoto chorar, ela me apoiou e me ajudou a convencer minha mãe a fazer as mechas cor-de-rosa. Irmãos são pessoas que estão com você desde que nasceu. Você dividiu sua vida com eles, seja no amor ou na marra, não importa: você construiu uma vida. Por mais brigas que aconteçam, por mais ciúmes e inveja que role, ainda assim haverá sentimentos de proteção, admiração e carinho. Ok, eu brigo muito com a minha irmã. Mas por outro lado, passo muito mais tempo elaborando almoços de dia das mães, planejando assistir filmes, ela fazendo o macarrão e eu lavando a louça e tentando viver uma vida equilibrada, sem cair demais prum lado só. Depois de quase dezessete anos, aprendemos a viver. Aprendi que diários alheios não se lêem (foi só uma vez e eu tinha sete anos!), que bater nunca adianta (porque minha mãe estabelece que quem bate, pode apanhar sem culpa), a escutar pessoas narrando explicações (eu era a cobaia dos muitos trabalhos escolares que ela apresentava, tendo que cronometrar o tempo) e que irmãos mais velhos são péssimas influências - aprendi gestos ofensivos e palavrões com ela, e obviamente minha mãe ficava escandalizada.

Eu quero matar muitas vezes minha irmã. Mas eu mataria por ela o tempo todo, no fim das contas.

Ah, sabe qual a melhor resposta a se dar quando ela gritar que você só existe porque ela te pediu?
"- Ah, é? Pediu, agora aguenta!"
E sai correndo.



Primeiro: eu estava com esse post praticamente pronto há um dia, mas não o postei sei lá porquê. Ontem eu mal entrei no computador, só um pouquinho pra ver as novidades e nada mais. O comentário (ou os comentários) de Umrae me fez ficar com vontade de escrever outro post e não é especificamente sobre as novelas (aliás, eu reparei que a visão sobre os ricos piorou muito depois do filme Tropa de Elite. Todo filho de família rica virou, de repente, playboyzinho maconheiro @__@).

Moara me sugeriu um tema interessante, e eu trabalharei nele assim que puder. Afinal eu adoro meter um malho na mania que brasileiro tem de ou endeusar sua pátria ou criticar sua pátria, sem entrar em equilíbrio. Enfim, estou sem tempo, I'm sorry, mas vou comentar assim que puder também, rs.

Para quem se interessa: esse post é para a Blorkutando, e ambas as fotos são minha e da minha irmã. Sim, eu sou o bebezinho.

11 comentários:

Aline J. Romy disse...

Luna, li muitos post seus e esse sem dúvida foi o melhor e o que mais me emocionou! Eu tenho dois irmãos, um mais velho e um mais novo! E uma irmã adotada que mora com a minha vó! Meu irmão mais velho é um saco, mas é ele que me leva pra cinema e festas e ele com quem converso, mesmo que ele seja mongol XD E o caçula é o protegido da familia u.u Ele é daqueles que se faz de santa, sabe? EU TENHO ODIO MORTAL DELES AS VEZES! Mas no fundo não me imagino sem eles!
Adorei esse post e as fotos tão muito fofas *-*

Blanca disse...

Ficou lindo, lindo, lindo.

Juliana Mendes disse...

eu n sei pq motivo...
mas eu nunca quis ter uma irmã, nem um irmão..
nem qqr coisa do tipo...
que divida atenção..
filha da unica filha mulher por parte de mãe..
fo primeiro filho por parte de pai..
queridinha da familia...
^^

assim continuarei, nennhum irmãozinho me tira isso, não é egoismo.. meus filhos terão tios e tias por parte d epai!
^^

beijo

Umrae disse...

Eu sinto falta de ter um irmão (mas que fosse mais novo, porque o papel tradicional esperado do mais velho obviamente é o meu perfil).
Eu tenho medo de não ser uma boa mãe um dia, porque são muitas as coisas que você tem que conseguir enfiar na cabeça das crianças para que elas convivam bem.
Atenção de pai e mãe e ganho dos bens materiais que se quer não dependem de haver outro ou não, mas é difícil que os filhos entendam isso. Se eu conseguir escrever para essa pauta, vou explicar minha visão disso, mas não sei se vai dar tempo (provas e trabalhos em demasia, e já fui mal em uma porque não consegui terminar a tempo, então vou ter que me matar para a bimestral dessa matéria).
Sinto pelo filho que talvez tenha um dia. Eu acho que não dou conta de mais de um. Ele não vai ter primos pela minha parte, e talvez tenha pela do meu noivo, mas não vai adiantar muito porque ele não suporta a irmã e não faz a menor questão de conviver com ela (com muita razão, preciso dizer, porque ela é o cúmulo da folga, da isenção de responsabilidade e do egoísmo, não só ao lidar com ele, mas com a mãe também).
Ele vai depender de se cercar de amigos, mas amigos vem e vão... essa rotatividade é meio triste, apesar de inevitável.

Mariana Lopes disse...

Eu tenho uma irmã mais velha e ela é um SACOOOOO :@ Pega minhas coisas sem me pedir, briga por tudo, se acha A Madura e jura que merece mais do que eu rs mas apesar de tudo, ela é a minha melhor amiga, é com ela que eu vou contar até o fim, então, melhor viver na paz, né?

Ps: eu estudo no CEFET/IFRN tbm rs

x Sete Pontas disse...

Você descreveu eu e a minha irmã. :D
Apesar que a gente briga mais, acho eu.
E eu sofro pq ela é bem mais bonita que eu, hum. u.u

Cris Cavaletti disse...

Nossa,quase chorei com o post.É assim mesmo que eu sinto em relação à minha irmã,só que eu sou a "temida" irmã mais velha e a nossa diferença de idade é pouquinha,quase nada.E eu influenciei ela,coitada.Acho que isso me despertou um espírito fraternal muito louco e afinal posso admitir: EU AMO MINHA IRMÃ!
Luna,seu blog é uma graça.Escrevi o post sobre feminismo,não sei se ficou bom como você esperava e espero sinceramente que você goste.Amei tanto seu blog que agora vou visitá-lo sempre! Me conquistou,Luna! Parabéns!

Umrae disse...

Com isso de que mais hemocentros são necessários eu concordo plenamente.
Mas com esse assunto, sei lá... Por que as pessoas não se mancam e param de falar bobagem sobre as que elas não conhecem, né?
Se ter irmão fosse sinônimo de saber compartilhar e blá, blá, blá, minha cunhada não seria a peste egoísta que é. Avalia: outro dia ela teve a pachorra de chegar para a mãe e perguntar: Escuta, quando é que os dois vão casar? Porque quando eles mudarem, vai ser assim: você passa seis meses lá com eles e seis meses aqui.
Sabe quem paga as prestações da casa e todas as contas? Meu noivo. É, pasme, ela espera que ele arranque a mãe da própria casa (no sentido de usufruto), que ELE paga, para deixá-la todinha só para ela fazer o que quer lá (se arranchar com o namorado, no mínimo). E só faltaria querer que ele continuasse pagando as contas, porque o salário dela não chega nem perto de dar conta, e que levasse a mãe aos domingos para fazer faxina.

Umrae disse...

Parabéns pelo Blorkutando!
Tá sumida... Provas ou sem internet?

Marcelle disse...

nossa mereceu o blokurtando mais uma vez!eu não tenho irmão e ja quis ter uma irmã gêmea rs ainda quero as vezes pois é muito solitário aki em casa.muita fofinha vc na foto e eu talvez tambem tenha uma irmã(mas não foi traição não,foi antes dos meus pais se casarem).Vou tentar acompanhar mais o blog ta?visita o meu.Bj

Sol disse...

gostei muito de conhecer um pouquinho de você atraves do seu blog. Uma mensagem que faz agente parar para pensar...mesmo que não tenha tido irmãos eu tenho três filhas lindas, parabens e tudo de bom.