sábado, 3 de abril de 2010

The Lovely Bones, the movie

Quarta-feira eu fui ao único shopping da minha cidade assistir Um Olhar do Paraíso no único cinema da minha cidade. É, minha cidade só tem um cinema, porque o outro, que usavámos antes da vinda do shopping, era desconfortável. Na verdade era um teatro com um telão, rs, e virou cinema pornô depois do shopping. Enfim, não é isso que interessa. O que interessa é que resolvi sair da rotina e assistir um filme no cinema, pra variar.

O filme Um Olhar do Paraíso foi inspirado no livro traduzido como Uma Vida Interrompida escrito por Alice Sebold. O livro é daquele tipo que corta seu coração de tanta tristeza. Para se ter uma idéia, minha mãe nem quis ver o filme porque só de pensar que sentiria o mesmo que sentiu quando lia o livro, bem, isso foi motivo suficiente para ela não querer retomar a tristeza. E quanto a mim, eu só li duas vezes o livro em toda minha vida (sendo que tenho um padrão de ler quatro vezes, uma ou duas vezes por ano). Toda vez que pego pra ler, paro só de imaginar que o quão triste é.

A parte mais triste do livro é que a escritora escreveu o livro alguns anos depois de ter sido estuprada em um beco, no seu primeiro ano de faculdade, e quando, machucada e perdida, pediu ajuda, ouviu que tivera sorte, porque várias mulheres tinham sido estupradas e mortas antes dela, naquele mesmo beco. O nome original do livro é The Lovely Bones que, literalmente, significa Os ossos adoráveis. Alguns anos mais tarde, ela reconheceu seu estuprador e o prenderam, condenando-o à pena máxima. Mas obviamente isso causou um incrível abalo sobre ela que começou, inclusive, a usar drogas, apesar de dizer que nunca fora viciada. O fato é que ela escreveu The Lovely Bones, e o que disse foi "I was motivated to write about violence because I believe it's not unusual. I see it as just a part of life, and I think we get in trouble when we separate people who've experienced it from those who haven't. Though it's a horrible experience, it's not as if violence hasn't affected many of us." que pode ser traduzido como (mais ou menos, porque não sou muito boa em inglês) é "Eu estava motivada a escrever sobre violência porque eu acredito que isso não é incomum. Eu vejo como simplesmente uma parte da vida, e acho que é um problema quando separam as pessoas que já experimentaram das que nunca experimentaram. Apesar de ser uma horrível experiência, não é como se a violência não afetasse muitos de nós". Acho que tá por aí.

A história se foca em Susie Salmon, 14 anos, apaixonada por Ray, um garoto de pais indianos que viveu na Inglaterra (a parte sobre a Índia não aparece no filme, mas você deduz pelas roupas da mãe de Ray) e pertencente à uma família tradicional americana dos anos 70: pai, mãe, irmã e irmão, ambos mais novos. É uma garota ativa, cheia de vida, cheia de projetos como ser fotográfa. Porém um dia, quando volta tarde para casa, ela se depara com seu vizinho, o sr. Harley, e ele a atrai para uma espécie de esconderijo que construíra. De acordo com a própria personagem, a época era a época que crianças desaparecidas era algo que não tinha muito destaque e as pessoas confiavam muito mais. Afinal hoje em dia se uma criança encontrasse com um cara que perguntasse se você quer ver o que ele construiu - uma espécie de clubinho subterrâneo - o mais provável é que ela corra, e se mande. Mas eram os anos 70, era Estados Unidos (ninguém tem medo de lugares desertos nos EUA, é impressionante), era um vizinho, então a garota confiou, entrou no local, e cara, se deu mal.

Ele a cercou, a estuprou, a matou e a mutilou. Aí se começa uma sutileza. No livro, Susie lembra o que quanto ele a machucou, esquartejando-a depois de morta. Inclusive no livro o primeiro indício de sua morte foi o cotovelo encontrado por um cachorro, porém não se sabe a quem pertence, mas nós - leitores - sabemos que pertence à Susie. Durante o filme, porém, não há nenhuma parte que confirme o estupro e o mutilamento. Há deduções: a cena do vizinho a jogando no chão, o saco preto em que você sabe que é impossível caber uma pessoa sem ser mutilada, todo o sangue. E então a personagem, doce e angelical, vai para uma espécie de Meio-Termo. Ela tem que ficar lá, porque as pessoas não conseguem superar sua perda, e nem mesmo ela consegue se desapegar de seus familiares e amigos. E enquanto houver essa ligação, diz Franny - personagem existente no livro e suprimida no filme - ela não poderá nem retroceder à Terra (impossível) nem avançar para o Céu.

O filme se cerca de alegorias e jogos para representar a ligação entre esse fantástico mundo estranho e a realidade. A cada vez que o assassino destrói uma prova, Susie sente, do seu pequeno reduto seguro, a perda de mais uma ligação. Ela experimenta sensações de terror e encanto: o novo mundo tem absolutamente tudo o que se quer. Ela pode ser quem quiser, ter o que quiser. Um cantinho cheio de desejos querendo serem realizados, certamente confortável para abarcar a recém-assassinada. No filme Holly desempenha o papel da Holly e Franny do livro. Ela é a amiga, companheira e companheira, mas também é a orientadora. E Susie, desempenhada pela atriz Saoirse Ronan que fez Desejo e Reparação, tenta lutar com o ódio que sente. Ódio por ter um assassino que ninguém consegue descobrir, ódio por ter sido separada da família, ódio por ver sua família, anteriormente tão feliz, sentir as fragéis ligações caírem por terra.

Aí eu devo discutir algumas mudanças entre o livro e filme. O filme acabou se tornando mais inocente, muito doce, como um inocente parque de diversões. Há somente beijos, mas não há a menção ao sexo. Há indicações e muita sutileza, mas nenhuma confirmação de toda a brutalidade. Susie não é uma pessoa que simplesmente continuou doce depois da crueldade cometida, e sim uma pessoa que decidiu ser doce, e isso meio que se perdeu no filme em relação ao livro. Mas devemos, claro, elogiar a atuação da Susan Sarandon que fez o papel da avó de Susie. A atriz já fez Tudo Acontece em Elizabethtown, Encantada, Doidas Demais e O Óleo de Lorenzo. A personagem saiu como uma caricatura, mas desempenhou o papel que deveria desempenhar: a avó fumante, que bebe todas e dá um 'up' na vida da família destroçada pela perda. No livro ela transforma a filha mais nova, Lindsay, representada pela Rose McIver no filme. A irmã é absolutamente essencial: tanto no livro quanto no filme ela sofre o impacto de ser a irmã da assassinada, de ter que ser agora a irmã mais velha, o exemplo, a régua moral. De uma hora pra outra, ela sente que tem que desempenhar o papel de ser a irmã mais velha, principalmente para o irmão caçula, um garotinho. No livro o impacto disso na escola é explorado, ausente no filme: na feira de ciências, Lindsay desenha em seu crachá o peixe salmão, ao invés do sobrenome, simplesmente para ninguém lembrar de Salmon = menina que foi assassinada e etc. Além disso a irmã se une ao pai (de forma indireta) na procura pelo assassino, porque sente que não conseguirá ter paz até descobrir a identidade de quem destruiu a família.

O filme é encantador, salvo algumas cafonices a la photoshop Glimboo, porque francamente rosa desabrochando debaixo da água é algo bem brega. Para quem se interessa, o filme foi feito por Peter Jackson, o mesmo que dirigiu O Senhor dos Anéis. Aparentemente ele fez um filme chamado Almas Gêmeas que fala um pouco de escape e assassinato e parece ser interessante. O filme é antigo, mas quando eu achar, baixar e ver, dou um review. A outra coisa que surpreende na atuação é o cara que faz o assassino. Ao pesquisar sobre o filme, descobri que o sr. Harvey é feito pelo mesmo cara que faz aquele cara careca e passado pra trás por Miranda em O Diabo Veste Prada. Confesso que me surpreendi, não imaginava que o mesmo cara podia encarnar dois papéis tão distintos a ponto de eu mal reconhecer. Dou palmas para a atuação dele.

O filme também merece palmas pelas tomadas da câmera. São tomadas bem intimistas, com aquele zoom bem perto que visualiza os poros da pele, lascas de madeira e coisas do gênero. A edição, a fotografia, absolutamente toda essa parte está esplêndida. A trilha sonora também é boa (mas teve um momento que não gostei muito da música. Por algum motivo não consigo gostar de música cantada em filme que não seja musical).Senti falta de algumas cenas do livro como a cena em que contam para o irmão mais novo que a Susie morreu, e inclusive acho que o irmão foi meio negligenciado, tratado meramente como uma criança que por acaso é o irmão de uma garota que morreu, quando na verdade ele representa a inocência infantil diante do assassinato. O papel do detetivo foi pouco explorado, e do pai ficou na medida. A irmã foi menos explorada do que deveria, mas ainda assim passa a impressão correta. Pensei na Abigail, a mãe, como uma mulher mais sensual presa pela vida típica de dona-de-casa, mas a atriz foi bem em seu papel.

Então, encerrando, obviamente o livro sempre se sai melhor do que o filme, justamente por ter mais possibilidades de cobrir cada personagem e entender a importância de cada um. Ruth, Ray, Lindsay, Abigail - todos tem um mundo dentro de si, e enquanto o filme explora a visão de Susie para cada mundo, o livro explora o modo como Susie entende cada mundo. Parece igual, mas há diferenças. E acho que, no fim das contas, faltou sexo. Afinal quando Susie fala "minha irmãzinha me passou na frente", ela não se referia ao beijo que Lindsay deu, e sim à sua primeira vez. A mesma coisa quando Susie precisa sentir Ray e acaba assumindo o corpo de Ruth... é mais do que um beijo, é o desejo carnal que ela precisa ter, e não pôde devido ao assassinato.

O filme é belo. O livro mais ainda.


desconsidere os anúncios do final, ok

P.S.: pesquisando e lendo comentários, vi que muitas pessoas acharam fraco e etc. O.k. Mas há algumas informações que me senti na obrigação de adicionar: primeiro, não é um filme de suspense. Tem gente achando que é tipo suspense 'quem matou Susie' e não é. É um filme de drama, e portanto sabemos desde o início quem é o assassino. Depois percebi que tem pessoas que acharam o filme confuso. Eu não achei, mas talvez tenha sido porque li o livro, então entendia o que estava rolando. E percebi que as pessoas tem mania de fazerem críticas tipo "ah, não entendi, então é uma porcaria". Isso realmente me faz perder a credibilidade em qualquer crítica da pessoa porque se ela não consegue avaliar os quesitos como fotografia, enredo, roteiro, etc e simplesmente classifica em "se é confuso ou não", então ela é incapaz de criticar qualquer coisa. Mas, enfim, não achei o filme tão confuso assim, mesmo depreciando o fato de li o livro. Mas acho melhor outra pessoa afirmar isso, uma pessoa que não tenha lido o livro.

7 comentários:

Umrae disse...

Eu quero ver esse filme, mas duvido que eu consiga tão cedo. Vou ter duas semanas de provas.
Ah, outro dia eu te falei do diário da personagem do livro e falei o nome errado, é Paloma, não é Paola. Estou ficando velha, hahaha.
Tipassim... o Três Fadas nem em feriado?
Bjo

Kamilla Barcelos disse...

Eu assisti ao filme sem nem saber a existencia desse livro. Gostei muito do filme, não achei nada confuso. Agora quero ler o livro tb.

Laís Dourado disse...

Oi, já fiz o sorteio do Interativos, você vai indicar pra http://gunsaintroses.blogspot.com e receber indicação de http://pulsandoatodoinstante.blogspot.com

Passa lá pra conferir ;D

Carol Winchester disse...

Eu vi o trailer desse filme em algum canal de televisão por aí, onde mostrava os bastidores e o ponto de vista dos atores e foi um fime que me chamou bastante a atenção mesmo, vou ver se já saiu nos cinemas por aqui (moro no Rio, mas o único filme que presta por aqui é Como Treinar o seu Dragão [também só porque é em 3D, mas deshaketo] e o Livro de Eli), mas acho que vou ter de procurar o livro primeiro, porque acho as coisas confusas muito fácil. D:

Juliana Mendes disse...

QUE LINDOOOOOOOOOO ELEEEEEEEE...
PQP...
VOU TER QE IR ASS.!!!!!!!!!!!
FILME CONFUSO É AQUELE..
UMA LOUCA PAIXÃO, COM SANDRA BULOCK...
QUE GANHOU O TROFEU FRAMBOESA..

Aline J. Romy disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Aline J. Romy disse...

Eu assisti esse filme mês passado graças ao meu irmão mais velho que baixou e praticamente me obrigou a assistir --' Eu não li o livro, na verdade, só vim saber que era baseado em um livro agora! Porém, mesmo sem ler não achei o filme confuso e como perguntei ao meu irmão antes de assistir qual era o genero e ele respondeu que era drama não me decepcionei! Claro que se eu estivesse esperando um suspenso eu teria gostado menos, mas como um drama não faltou nada *-*
Adorei a cena em que a irmã da Susie entra na casa do assasino, eu fiquei prendendo a respiração como se fosse eu que estivesse lá!
Em suma eu adorei o filme e também não concordo com as criticas que tenho visto por aí u_ú
Ahh, e vou baixar o livro *---*
Beijão ;