quinta-feira, 1 de abril de 2010

uma mini novelinha mexicana




Era a décima primeira maldita vez que a velha movia seus lábios para emitir um chulo palavreado típico dos pseudo-burgueses indignados e mal-humorados. Para criticar sua filha, Constantine, a velha achava que podia usar de qualquer artifício, inclusive usar a sua pobre nora, Paola Maria, como prova do que acontece com as mulheres que tentaram pensar demais na adolescência. Obviamente Paola Maria sentia todo aquele ódio misturado de humilhação em sua garganta, e engoliu em seco.

Tinha mais de trinta anos a Paola Maria e metade de sua vida estava naquela casa, com aquela velha, com o filho da velha. Casara-se cedo, levada por uma paixão tipicamente adolescente, cheia de ardores, panos quentes e muitas noites fogosas no escuro. Mas agora tudo era mera lembrança, ainda mais quando a Paola Maria erguia os olhos e via o seu marido na versão atual, uns quinze anos mais velho: gordo, peludo, resmungão, futebol, cerveja no cérebro, abdomên e na mão, palavrões sendo a sua segunda natureza, o machismo sendo a sua primeira. Foi uma clara decepção e a pobre Paola Maria não sabia muito bem o que fazer, visto que queria realmente um pouco de paz. Mas tendo aquela velha imbecil que acreditava em mitos lhe enchendo o saco, acreditando piamente em coisas sem o menor fundamento científico.

Paola Maria gostava de ler os avanços da ciência, resquícios de sua adolescência quando sonhara em ser uma famosa cientista que conseguiria fazer da água o maior remédio do mundo. Ela faria com que uma simples gota de sua avançada bebida fosse capaz de curar a diabetes, câncer de mama, impotência masculina, frigidez e mau-caráter. Era deveras sonhadora, mas na época ninguém via muito mal em uma criança sonhar. Agora ela tinha na ponta da língua as respostas dos mitos recorrentes, mas de que adianta quando a velha com quem você mora se recusa a abrir sua mente para aceitar qualquer novidade, seja ela vinda de Harvard ou Oxford?

E a pobre Constantine tendo seus sonhos ceifados no auge de sua juventude. Coitada. Se continuasse a ser infernizada assim, viveria no inferno até o fim de sua vida. E provavelmente casaria-se com o primeiro princípe encantado que surgisse na sua frente e descobriria quinze anos depois que o princípe era só fantasia e que sempre vem incluso de um pacote tenebroso constituído de família, machismo e grosseria. Ah, pobre Paola Maria! Pobre Constantine. Mulheres de almas sonhadoras e despidas pela cruel sociedade!

- Vai se misturar àqueles imundos comedores de crianças! - declarou a velha, xingando o frango assado que Paola Maria tinha se esforçado tanto para fazer. E a maldita xingava o frango, o precioso arroz, o suco de acerola com abacaxi, o refrigerante, a salada esplêndida, absolutamente tudo que a pobre Paola Maria tinha feito ou comprado. - tanto as pessoas falam e falam, e eu nunca acreditava...! Mas devia saber a víbora que tenho como filha, aliada daqueles demônios? - sua voz ecoava pela sala de jantar, com todos seus gritos insultando a filha. Palavrões, xingamentos e noções deturpadas faziam parte e o irmão de Constantine, Antonito Juan, nada fazia. Só concordava com toda a falta de educação que a velha possuía.

Resmungando, bebeu o suco de acerola com abacaxi. A velha tinha muitas opiniões firmes, duras e sem chance de serem mudadas. Quantas vezes Paola Maria tentou argumentar que pobres não são todos sem classe, que comunistas não comem crianças e que tudo bem se a pessoa não for católica? Paola Maria tinha a ciência ao seu lado, comprovando cada argumento que ela dissesse, mas a velha tinha a sociedade inteira a seu favor.

A qualquer momento teria um piripaque. Sendo hipocondríaca, tomava remédios de tarja preta escondida do filho que não gostava, e sempre achava um pretexto para se fazer de doente. Mas muito de suas doenças era simplesmente fingimento, mas ao decorrer de todos esses anos, a velha começava a acreditar nas mentiras que dizia e assimila-las a tal ponto que realmente começara a ter alergia de leite com manga, precisar de aspirina por toda vez que tinha barulho na rua e só se acalmar quando bebia água com açúcar. Sendo a vilã da história tipicamente novela mexicana, ela era malévola, grosseira e nada simpática. Enquanto a pobre heroína de nossa nobre história dramática denominada Paola Maria tinha que aturar toda essa triste história que fez com que ela perdesse seus sonhos, sua beleza adolescente e sua felicidade em sonhar com o mundo feliz.

- Mãe, vou embora - disse Constantine, muito irritada, e se levantou da mesa. A velha continuou rosnando, se erguendo da mesa também, soltando insultos.
- Sua corrompida. Aposto que ficou com aquele dirigente vagabundo - a mãe murmurou, sua voz cortando o ar como faca. Paola Maria também se levantou, achando melhor já estar preparada para pegar o maldito copo com água e açúcar para fazer a velha, ao menos, sentar, respirar e ficar mais calma. Do jeito que a coisa estava indo, era capaz de Constantine apanhar. Silêncio.

Constantine se virou, desdenhou.
- E se fiquei? Não é mais problema seu.
- Ficou? Não foram só beijinhos.
Um riso de Constantine deu a resposta: não foram beijinhos.
Paola Maria correu pra cozinha, escutou gritos entre mãe e filha, e alguém berrando de dor. Decerto apanhava da mãe que batia ou a velha estava tendo o piripaque.

Mas todo o ódio acumulado naqueles gestos. Toda a vontade de manipular aquela simples bebida. Não havia algum fundamento científico para a água com açúcar, ao contrário, os médicos, cientistas, as pessoas que sabiam do assunto diziam todas que se o açúcar é transformado em glicose ao chegar no organismo, então não tinha como ele ser relaxante. O efeito era psicológico, puro placebo que funcionava. Como funcionou com a velha durante anos. De certo modo, a velha acreditava piamente que sem a água com açúcar, ela iria ter um infarto e iria morrer. Sempre creditou sua vida longa à água com açúcar e seu suposto efeito relaxante. Então Paola Maria, de certo, tinha sido a responsável pela mulher viver tanto tempo porque ela era quem fazia questão de acalmar sua sogra, procurando retribuição por toda a bondade que tinha? Enraivecida, continuou escutando os gritos. A velha estava tendo um piripaque. Surgiu o berro de Antonito Juan:
- Cadê a merda da água dela, mulher?
Surgiu o fino grito de Constantine:
- Mamãe!

O copo já estava cheio da água da torneira, já derramara três colheres de chá de açúcar dentro do copo. E impulsionada por um instinto assassino, jogou a água na pia, deixando cair pelo ralo e quebrou o pote repleto de açúcar no chão. Não havia mais açúcar, não se pisara em cima e gritara a ausência da preciosa sacarose para a casa inteira ouvir, incluindo a velha que gritara pasmada. Aí, levada pelo seu medo profundo de um dia não poder confiar em suas superstições, sentiu o coração bater cada vez mais rápido. Por puro estresse e pavor, a parada cardíaca se fez e só Constantine que tomou a atitude de correr para o telefone e ligar, pedindo ajuda. De nada adiantou.

O enterro foi dia seguinte, Constantine foi embora e, feliz, Paola Maria pediu divórcio e sumiu no mundo pra ser feliz. Dizem que ela encontrou um espanhol no percorrer da vida, se apaixonou perdidamente e foi viver feliz com ele em uma casa muito simples e bonita em Londres, e outros falam de como ela resolveu ser viajante pela China e Índia. Mas tudo o que dizem é que sabem que ela resolveu ser simplesmente feliz, depois que faltou a água com açúcar.



isso é uma brincadeira. sem graça, mas a quis de qualquer jeito.

Pauta para Interativos, uma brincadeira de Laís. Postei atrasada por motivos de ficar sem internet, sem tempo e sem paciência, mas vá lá.

A propósito quem me sugeriu o tema foi a Michele, dona de um blog muito doce chamado O Diário de Marin Jones que contém textos alegres para fazer todo mundo feliz. Ela sugeriu o tema água com açúcar e me deu total liberdade. Então resolvi misturar uma pseudo-novela mexicana (quer algo mais água com açúcar que isso?) e o significado de beber o troço = relaxar. Obviamente a história tem algo trágico, mas se a história não tiver algo trágico, não é de Luna.

E a propósito, votem: petição para Ficha Limpa. Pretende chegar a 2 milhões de brasileiros, e o objetivo é apoiar e pressionar os políticos a votarem a favor do projeto Ficha Limpa que será votado dia 7 de abril. Caso esse projeto seja aprovado, os candidatos que tiverem cometido crimes serão retirados das eleições de outubro. Basicamente, houve passagem na polícia e etc? Não pode sequer ser candidato. Enfim, não sei se isso vai dar certo, os políticos possuem muito desprezo pela população brasileira. Mas talvez isso tenha algum efeito real.

5 comentários:

Michele disse...

Muito bom, MUITO bom, Luna! Adorei o texto!!! Você usou o tema de duas maneiras bastante criativas e deu um toque de comédia-romântica à trama toda! :D

Eu teria jogado o pote no chão e água no ralo já na 2ª linha! Uma santa essa Paola Maria! hahaha

Um beijo, querida!

Carol Winchester disse...

Adorei, palmas!
Ficou muito bom Luna, que bom que a velha morreu no final, ô mulherzinha chata :O

Claudia disse...

Haha, excelente maneira de usar o tema.

Então... não são fragmentos de poemas, são haikus ( estou contando sílabas poéticas e não sílabas normais, porque todos os lugares em que pesquisei diziam que era para fazer assim).

Eu só simpatizo com o aviador, da estória toda, mas acho que ele também deveria ser mais "indulgente", com os adultos e consigo mesmo.
E o principezinho para mim é um egocêntrico, arrogante, psicopata em potencial (falar que a Rosa é dele, porque ela o cativou com seus "atos"... conversa de estuprador...).
Feliz dia da mentira para você também.
Bjo
(Umrae disfarçada)

Laís Dourado disse...

ahahe, você é ótima Luna. Nunca previsível! =))
Tô adoranado nossa brincadeira!

Sinceramente, a Paola é uma boboca de não ter feito isso antes. Mas, bem imagino como é dificil se libertar de pessoas sugadoras-de-vida como essa véiamá!
heheh
;**

Umrae disse...

Ah, esqueci de explicar: o lance dos haikus resumindo o assunto de cada texto veio do "A elegância do ouriço", pois é assim que uma das personagens principais (que, coincidentemente se chama Paola) começa cada capítulo do "diário de pensamentos profundos" que ela escreve.