segunda-feira, 15 de março de 2010

estado x estado

Eu tinha um texto preparado sobre o novo clipe de Lady Gaga, mas as imagens deram pau e fiquei com preguiça de ajeitá-las, então deixa para amanhã, ok? Mas... eu queria muito comentar sobre a questão "nordestina" pelo resto do país.

Na Superinteressante de fevereiro de 2010, edição 275, há uma matéria que - na teoria - é bem interessante. Chama-se "Como as empresas enxergam você" e retrata a visão das empresas sobre cada região. Porém eu tenho a opinião de que seria mais interessante a Super ter feito uma comparação com a realidade, ou ao menos esclarecer os mitos absurdos, porque o que saiu foi um amontoado de clichês preconceituosos. Nem vou comentar sobre a visão do Sudeste, Sul e Norte&Centro-Oeste, porque não conheço direito essas regiões para afirmar o que é mito e o que não é.

A transcrição, literal, sobre uma das facetas do Nordeste:

LOW-TECH: gadges não são muito a onda dos nordestinos - pelo menos é o que dizem empresas como a Consul. A fabricante de eletrodomésticos percebeu que tinha de retroceder na tecnologia - e não avançar - se quisesse bombar as vendas do microondas no Nordeste. Em julho de 2008, a Consul lançou lá um modelo novinho com um antiquado botão giratório, daqueles que você gira para controlar o tempo de aquecimento nda comida. Nada do touch screen. "Eles sentem medo que podem errar, preferem o modelo antigo" diz Daniela. "Além disso, só 4% dos lares do Nordesre e do Norte tem microondas. Muitos estão comprando seu primeiro aparelho e ele precisa ser fácil de errar"

Nem vou comentar sobre a estatística dos 4%, porque inclui o Norte também e certamente embora o microondas seja artigo comum, não é algo de prioridade para alguma família. O padrão aqui é sempre optar, geralmente, nessa ordem: fogão, geladeira e o resto vem depois. Porém esse papo de microondas com botão giratório... eu não conseguia imaginar como era, porque eu nunca vi um negócio desses, então tive que jogar no Google. E nem no Google achei um exemplo que possa reconhecer.

Esse texto foi criticado na comunidade oficial da Superinteressante, inclusive com depoimentos de pessoas que moram em outras cidades nordestinas que nunca usaram esse microondas. Ou seja não é só viagem da minha cabeça. Porém achei estranho sermos considerados tão "low-tech", antiquados, quando eu acho tão comum as lojas vendendo computadores mais e mais modernos, os mais recentes modelos de celulares, etc, etc, etc. Eu nunca vi alguém com "medo" de errar na hora de aprender a usar, no máximo idosos e ainda são poucos os que hesitam em usar um computador, porque de TV, microondas e eletrodomésticos de cozinha, sala, essas coisas, eles já sabem tudo, porque viram a criação, a evolução, viram a tecnologia entrar dentro de casa.

E isso me faz com que eu comece a questionar a visão do Nordeste, ou então do Brasil. Enquanto o Nordeste é visto como atrasado, o Brasil é visto como país de macacos, indígenas, cipós e atraso. Sem contar as belas bundas que vemos como "brasileiras" no exterior, mas que aqui elas estão cobertas por calças jeans. Agora como podemos quebrar essa visão de que o Brasil é um país de bundas e florestas, se somos bairristas dentro dele, e fazemos questão de estimular preconceitos? Esses dias estava conversando com a minha meia-irmã do Rio de Janeiro, e ela criticava muito isso. Ela me disse que estava absolutamente cansada de receber questionações sobre a violência carioca. De fato, tenho que concordar com ela: a mídia propaga a violência das favelas como algo absurdamente escandaloso, a ponto de as pessoas tropeçarem em cadáveres. Ok, existe violência, mas existe em todo lugar. Existe no Rio, São Paulo, Bahia, Pernambuco... até no Rio Grande do Sul, o estado mais valorizado pelos nativos, tem! Então porque esse enfoque todo na violência carioca? Assim como a mídia adora falar da nossa pobreza, atraso de vida, de desenvolvimento, bla bla bla?

Além, claro, dos sotaques, que existem, mas não são tão forçados como nos filmes que fazem. Basicamente o Brasil nos desconhece. Completamente. Os filmes que passam em nossa região - ainda que sejam ótimos - são estereotipados. A caatinga não é absurdamente seca, sedenta de água - tem uma grande diversidade de animais, plantas e há, inclusive, espécies que só existem na caatinga e vivem muito bem lá. O Nordeste não é só Bahia, e cada estado tem uma cultura. Os gaúchos podem falar o que for de que foi o único estado que conseguiu manter suas tradições (sim, eu li exatamente isso. E não foi em tom pejorativo, era simplesmente um comentário), mas os nordestinos, divididos em nove estados, tem uma cultura própria, com identidade, cultos específicos, hábitos e tradições. A Super comentou isso, e sim, é verdade. Moro em uma cidade que, infelizmente, não há tanta cultura nordestina porque ela está naquele ponto que crescer é fundamental, mesmo que esmague as tradições. Acho que todas as capitais atuais e cidades grandes já passaram por um processo assim (juro, se um dia eles demolirem aquelas casas lindas da praça principal -tem nome, mas não vou dizer-, eu infernizo a vida deles pra se sentirem bem culpados!) E como muitos são imigrandes, então poucos se lembram da cidade há cinquenta anos atrás, por exemplo.

Só quero mesmo é passar um recado: somos muito mais do que vaqueiros e sertanejos, do que o mundo de Lisbela e o Prisioneiro, e definitivamente se você for o tipo de pessoa que vê a nossa região de fora e tem preconceito com os nordestinos, lembra que foram eles que ergueram Brasília. E agora formam a Grande São Paulo, portanto são mais do que qualquer pingo de desprezo que você der. E, ainda mais, se mesmo assim não funcionar, eu vou logo perguntar: se critica tanto o Nordeste... porque passa as férias nas nossas praias?

P.S.: e o termo "baianada" que alguns paulistas usam é ofensivo. Eu não gosto.

Não foi para ninguém em especial, e sim em geral. Cansei de ver gente criticando o Nordeste em comunidades do Orkut, dizendo que é por causa de regiões como a nossa que SP tá no atraso. Basicamente quem mais comete esse preconceito são pessoas de SP e RS (no Orkut, claro), porque argumentam a favor da separação do estado e tal, afirmando que são os melhores, e isso realmente é lamentável, porque tenhos amigos maravilhosos desses estados e eles realmente não merecem a vergonha de quando chegarem no Nordeste, serem questionados se realmente há preconceito contra nós, como acontece.

Céus, realmente cansei. E a Globo só sabe passar miséria da gente.
Se não é seca, é fome. Se não é fome, é abuso de PT. E quando não é nada disso, é Carnaval-Carnaval ♫

Depois se perguntam porque a gente não consegue acabar com coisas desse tipo. Como, se lutamos contra nós mesmos?


3 comentários:

Umrae disse...

Minha sogra tem um microondas desse de botão giratório, kkk. Não é nada absurdo nem atrasado, não é tecnologia inferior. Simplesmente, em vez de teclar o tempo em botões de número, você gira um botão que parece um dimmer e o tempo vai aumentando (é um botão "molinho", sensível, fácil de manusear, nada que lembre aqueles timers antiquados). Esse tipo de botão é bom para quem tem dedos gordinhos /muito grandes.
Hum, quanto a essa questão de que os "paulistas" são muito preconceituosos, tenho minhas observações. Não tenho nenhuma base estatística para afirmar porque não tenho condições de conduzir um estudo sobre o assunto, mas tenho a sensação de que os próprios migrantes daqui discriminam uns aos outros, então é claro que as crianças que nascem aqui acabam seguindo o mau exemplo. Meu pai, por exemplo, mato-grossense, se diz paulista e costuma usar esses termos pejorativos com frequência. Quer um caso pior ainda? Meu noivo, que é nordestino (de Recife), também faz isso (assim como um bando de gente que eu conheço que também não nasceu aqui).
São Paulo tem que se mancar que já perdeu a hegemonia há muito tempo, que empresas estão saindo do Estado para regiões com incentivos fiscais melhores, que está sofrendo emigração e que, se temos tantos problemas de infraestrutura, é porque nós não fizemos um planejamento correto para acompanhar o crescimento.
Mas acho que essa raiva infundada que paulista sente de outros Estados têm um pouco a ver com certos desaforos que a gente é obrigada a aturar do governo federal. Circulava, por exemplo, uma propaganda no ano passado em que o governo dizia "Vocês sabiam que São Paulo é o Estado que mais recebe repasses de impostos do governo?" Como se a gente "devesse favor" ao governo por isso! O repasse, por lei, é proporcional ao imposto recolhido pelo Estado. Se nós pagamos, proporcionalmente muito mais, porque não podemos dar nenhum tipo de incentivo fiscal para que as outras regiões tenham condição de se desenvolver e gerar empregos, é lógico que vamos receber mais repasses! Essas afirmações do governo me irritam profundamente, porque parecem que querem forçar a barra para que a gente se sinta culpado e grato por receber exclusivamente o que é nosso por lei. Só que tem gente que acaba associando isso às vantagens fiscais que os outros Estados têm, então a raiva piora.
Sinceramente, eu acho que não existe milagre, e que nós temos que "perder" e ceder em alguns pontos para o bem do país como um todo. É lógico que uma região comercialmente bem desenvolvida não tem nada que ter direito a incentivo fiscal mesmo. Mas até aí, ter que ouvir esse tipo de encheção do governo...

doceespelhomeu disse...

Falou muito. Adorei o texto!

Cara, santista se acha muito. Tipo, muito. Porque os santistas pensam que tão em São Paulo só que tem uma praia de brinde. Tipo, eu adoro Santos, mesmo, mas acho que todo lugar tem suas qualidades. e realmente me irrita quando as pessoas comentam do nordeste como se sentindo superior a eles. É uma visão muito esteriotipada mesmo...

Franci disse...

Concordo
Costumo ficar abismada quando vejo pessoas com visão tão estereotipada e preconceituosa do nordeste.Principalmente quando elas falam mal da grande migração de nordestinos parao o sudeste,como se isso houvesse sido prejudicial para eles,tipo isso foi tão favorável pra o desenvolvimento dessa região,provalvelmente o sudeste não se industrializaria tão rapidamente se não houvesse um leque de mão-de-obra,possibilitando o pagamento de baixos salários.